Terça-feira, Maio 12, 2009

DOCTOR ZHIVAGO (1965)

Estreia nos EUA: 1965, Dezembro 22

5 Oscars: Argumento-Não Original, Fotografia, Direção Artística e Cenários, Música Original e Guarda-Roupa;
e mais 5 nomeações: Filme, Realização, Montagem, Som e Actor Secundário (Tom Courtenay)

Argumento: Robert Bolt, segundo
a novela de Boris Pasternak
Cinematografia: Freddie Young
Montagem: Norman Savage
Música Original: Maurice Jarre
Direcção Artística: John Box, Terence Marsh
e Gil Parrondo
Cenários: Dario Simoni
Guarda-Roupa: Phyllis Dalton
CAST:
Omar Sharif....Yuri Zhivago
Julie Christie....Lara
Geraldine Chaplin....Tonya
Rod Steiger....Victor Komarovsky
Alec Guinness ....Gen. Yevgraf Zhivago
Tom Courtenay....Pasha Antipova/Strelnikov
Siobhan McKenna....Anna
Ralph Richardson....Alexander Gromeko
Rita Tushingham....The Girl
Jeffrey Rockland....Sasha
Klaus Kinski....Kostoyed Amourski
Adrienne Corri....Amelia, Mother of Laraetc.

etc.
Antepenúltimo filme de David Lean, “Doctor Zhivago” constitui, juntamente com “Bridge On The River Kwai” (1957) e “Lawrence Of Arabia” (1962), o tríptico épico do realizador. Com os bolsos recheados de Oscares por aqueles dois filmes (um total de 14, distribuídos equitativamente) Lean partiu para a realização do “Doutor Jivago” com toda a liberdade deste mundo. Seria a sua terceira e última produção.

Boris Pasternak, o autor da novela, veria a sua obra ser reconhecida pelo mundo das letras, que tencionava atribuir-lhe o prémio Nobel da literatura em 1958. Infelizmente, o governo da União Soviética tirou-lhe tal distinção ao ameaçar extraditá-lo do País caso ele se deslocasse a Estocolmo para receber o prémio. Pasternak, sobrepondo o seu amor pela terra-pátria a tudo o mais, foi obrigado a declinar por escrito tal honraria, confessando-se indigno da mesma. Entretanto o livro consegue ultrapassar fronteiras e é editado pela primeira vez em Itália. Pouco depois é a difusão maciça em inúmeros Países, originando um êxito total quer junto do público quer junto da crítica especializada.
Conhecendo uma primeira adaptação televisiva em 1959 (no Brasil e a preto-e-branco), a obra vê os seus direitos para cinema serem adquiridos pelo produtor italiano Carlo Ponti, no intuito de a sua mulher (a actriz Sophia Loren) poder desempenhar o papel de Lara. Felizmente que David Lean tinha o controle absoluto sobre tudo e depressa contariou tal intenção alegando que a actriz era demasiado alta para o personagem.
Como em equipa vencedora não se mexe, Lean reuniu a grande parte das pessoas que com ele tinham trabalhado em “Lawrence Of Arabia” com tão bons resultados: Robert Bolt (Argumento), Freddie Young (Cinematografia) e Maurice Jarre (Música) foram os coordenadores de uma vasta equipa de técnicos altamente qualificados que dariam ao novo filme a imagem de marca do seu mentor.
Falar de “Doutor Jivago” é falar de toda a beleza que o filme nos faz sentir em cada visionamento. Essa beleza, aliada a uma música inesquecível, envolve uma história de amor intemporal, constituindo o todo um dos filmes mais românticos (extravagantemente romântico) de toda a história do cinema. Tudo nos é transmitido pelos olhos de um poeta e é esse olhar que faz a diferença.

Razão tinha Lean quando insistia com Omar Sharif (aqui no papel de toda uma carreira) em não se comportar como um actor mas, pelo contrário, tentar “representar” o menos possível, se possível não fazendo absolutamente nada. Aposta claramente ganha do realizador, que consegue utilizar o olhar do actor como veículo preferencial de elipses temporais.

Apenas um exemplo, dos mais felizes: quando, em Varykino, Jivago antecipa o tão aguardado encontro com Lara através dos cristais de gelo na janela, cristais esses que se transformam em girassóis, que por sua vez se vão diluir no rosto magnífico de Lara, onde uns olhos ansiosos aguardam já pela aproximação de Jivago na biblioteca de Yuryakin. Cabe aqui referir uma pequena “artimanha”, que contribui eficaz e decisivamente para o sucesso do filme – o facto da relação entre Jivago e Lara nos ser anunciada logo no início do filme mas apenas se vir a consumar muito tempo depois. A espera é intencional, pois obriga o espectador a desejar aquele encontro ao longo de mais de metade do filme. E sabemos muito bem que o maior desejo se encontra na antecipação e não na “posse” propriamente dita. O verdadeiro amor tem sempre o condão de ser paciente...

Temos assim uma história de amor no centro da acção, com a revolução soviética como pano de fundo. Mas se esta é apenas um mero enquadramento político, aquela também não passa de um pretexto para mostrar o que é realmente importante no desenrolar do filme. E o que é importante em “Doutor Jivago” são as pessoas. Não como entidades abstractas de qualquer manifestação mas pelo contrário como indivíduos bem diferenciados que inoportunamente se vêm envolvidos em acontecimentos que os transcendem e relativamente aos quais se sentem impotentes de controlar. Num tempo em que a História não tinha tempo para os sentimentos pessoais, é o lado íntimo que assume o papel de resistente, nem que isso implique o desterro ou a morte. Boris Pasternak faleceu a 30 de Maio de 1960, vitimado por um ataque cardíaco, embora sofresse também de um cancro nos pulmões. Olga Ivinskaya, amante do novelista, que lhe serviu de inspiração para o personagem de Lara, morreu muito mais tarde, aos 82 anos (1995) em Moscovo, mas depois de ter sido enviada, por duas vezes, para campos de concentração de trabalhos forçados. A razão? Apenas o grande amor que a uniu ao escritor...

Quando da estreia mundial de “Doctor Jhivago”, alguns dias antes do Natal de 1965, a crítica americana, sempre veloz nos seus julgamentos sumários, arrasou por completo o filme. David Lean ficou tão desgostoso com tal reacção (apesar do imenso sucesso junto ao público) que jurou na altura não mais realizar qualquer outro filme. Felizmente que tal promessa foi quebrada, embora apenas por duas vezes mais: em “Ryan’s Daughter”(1970) e por último em “A Passage To India” (1984). David Lean morreu de cancro em 16 de Abril de 1991. E apenas três anos mais tarde é que “Doctor Jhivago” foi exibido pela primeira vez na Rússia.
CITAÇÕES MEMORÁVEIS:

Gromeko: "Good marriages are made in heaven . . .
or some such place"
>>>
Komarovski: "There are two kinds of men and only two.
And that young man is one kind. He is high-minded.
He is pure. He's the kind of man the world pretends
to look up to, and in fact despises.
He is the kind of man who breeds unhappiness,
particularly in women. Do you understand?
I think you do. There's another kind.
Not high-minded, not pure, but alive.
Now, that your tastes at this time should incline
towards the juvenile is understandable;
but for you to marry that boy would be a disaster.
Because there's two kinds of women.
There are two kinds of women and you, as we well know,
are not the first kind. You, my dear, are a slut"

>>>
Zhivago: "What happens to a girl like that,
when a man like you is finished with her?"
Komarovski: "You're interested?"
Zhivago: "You shouldn't smoke. You've had a shock."
(Pulls cigar from his mouth, drops it in the toilet.)
Komarovski: "I give her to you, Yuri Andreavich.
As a wedding present."
>>>
Gen. Yevgraf: "Tonya, can you play the balalaika?"
Engineer: "Can she play? She's an artist!"
Gen. Yevgraf: "And who teached her?"
Engineer: "Nobody"
Gen. Yevgraf: "Ah, then it's a gift"

CURIOSIDADES:

O interior do palácio de gelo foi em grande parte executado em cera de abelhas.
>>>
A mulher que Jivago tenta puxar para dentro do comboio em andamento sofreu na realidade uma queda o que lhe originou diversas escoriações (e não a amputação de qualquer perna como erradamente se fez crer). A cena usada no filme é a desse acidente, muito embora apenas seja mostrado o início da queda.
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Grande parte dos exteriores do filme foram rodados em Espanha (outros na Finlândia), em pleno regime fascista do general Franco. Durante a sequência da multidão a entoar "a internacional" (rodada pelas 3 da madrugada) a polícia espanhola compareceu no local pensando que uma verdadeira revolução se estava a iniciar e insistiu em permanecer até à conclusão das filmagens. Por outro lado, houve pessoas que acordaram pensando que finalmente o general Franco tinha sido derrubado.

Este é um daqueles filmes que se vê dezenas de vezes ao longo da vida. E sempre com um prazer redobrado. Existem muitas razões para isso; e provavelmente a excelente banda musical será uma delas. Da autoria de um homem que faleceu recentemente (conforme neste blog foi recordado) mas cuja música viverá para sempre: MAURICE JARRE. Esta é a partitura completa, digitalmente remasterizada, e editada em 1995 para comemorar o 30º aniversário do filme. Aproveitem!




6 comentários:

Teresa disse...

CLAP! CLAP! CLAP!

Grande post, a denunciar enorme paixão pelo filme!
Curiosamente, revi-o há muito pouco tempo (tal como já li o livro pelo menos, que me lembre, umas três ou quatro vezes), até o mandei vir pela Amazon muito antes de ter sido editado cá.

E a cena final, Rato? Quando ele avista Lara na rua?...
Revoltamo-nos contra o destino daqueles dois.

Beijinho.

Rato disse...

Tens de rever o filme, Teresa. Não é a Lara quem o Jivago vê no final, mas alguém muito parecido com ela. No início também pensamos isso, mas depois de ele ter o ataque de coração a câmara mostra-nos claramente tratar-se de outra pessoa.
O que, claro, só contrbui para o enaltecimento da morte do protagonista: ele morre apenas por vislumbrar uma silhueta que lhe recorda o seu grande amor e não por ver a pessoa real.

Pedro Moutinho disse...

Muito por "culpa" desta feliz evocação do filme, revi-o ontem à noite, até às tantas, numa cópia imaculada em DVD (a edição dupla, de coleccionador). Trata-se sem qualquer dúvida de uma referência obrigatória da História do Cinema e, a par de "Lawrence da Arábia", o topo da criatividade de David Lean, que conseguiu elevar o processo fílmico narrativo a níveis estéticos superiores. Então na arte da elipse temporal era inigualável.
Hoje, infelizmente, o Cinema perdeu já por completo o seu lado artístico, mantendo-se apenas o lado comercial. Já não existem artistas no universo fílmico, apenas funcionários mais ou menos competentes. É por isso que sabe tão bem ir buscar uma "velharia" como esta à prateleira lá de casa - faz-nos recordar que um dia o Cinema já foi uma Arte.

svarta disse...

many thanks for this wonderful collection and the hard work !!

Karocha disse...

Grande post rato e grande filme também!

Isto que eu tenho não é um pc, é um ferrari, estive o dia todo off, mas valeu a pena :-)

classic disse...

J'avais toujours le LP dans ma discothèque. C' est très agréable d' écouter cette belle musique en digital aussi! Merci :)