Sábado, Maio 31, 2008

FESTA NA ÁFRICA DO SUL

E uma vez mais Rato Records tem o orgulho de apresentar a todos os amigos deste blog uma jóia rara! Ou melhor, duas, uma vez que são dois albuns reunidos num só CD. Tratam-se de dois discos gravados na África do Sul, em 1976 e dos quais até há pouco tempo desconhecia por completo a existência. Mas pelos vistos foram mesmo gravados, e por intérpretes portugueses,
Três deles, Ana Maria Froes, Natércia Barreto (a popular Techa) e Zito, oriundos de Moçambique, de onde tiveram de sair após a Independência, para se radicarem na vizinha África do Sul, onde creio que ainda hoje se encontram a viver. Ana Maria Froes (ou Fróis) teve um êxito importante em 1970/71 com o tema “Topsi”, amplamente publicitado pelo suplemento musical Onda Pop do jornal “Notícias” de Lourenço Marques. Zito (de seu verdadeiro nome José Eduardo), do qual já aqui foi apresentada uma antologia, foi um popular fadista da capital moçambicana nos fins dos anos 60, princípios dos anos 70. Quanto à Natércia Barreto, as apresentações são desnecessárias visto a intérprete de “Óculos de Sol” e tantos outros êxitos ser sobejamente conhecida.
O cantor Jimmy, já falecido, era o irmão mais novo do popular Max. Nascido no Funchal, foi para Moçambique nos fins dos anos 50, onde fez parte de um grupo em que figuravam outros nomes bem conhecidos do público laurentino, como a Maria Adalgisa ou o acordeonista David Pantoja. Depois de alguns anos a residir na África do Sul regressou ao Funchal, onde chegou ainda a actuar na Casa de Fados “Marcelino Pão e Vinho”. Quanto ao Conjunto Símbolos de Esperança, pouco se sabe. Era formado por portugueses radicados na África do Sul, onde durante os anos 70 actuavam para a comunidade portuguesa.


À distância de 32 anos, todas estas músicas continuam a ouvir-se agradavelmente, com um sorriso nos lábios. Muitas versões de grandes êxitos da época (“Goodbye, My Love, Goodbye”, “Feelings” ou “Save Your Kisses For Me”), outros menos conhecidos (“Lady in Blue”, “To The Door Of The Sun”) e também alguns temas portugueses (“Canoas do Tejo”, “Hambanine”, “Que Linda Que És Madeira).
De registar a colaboração do célebre trompetista inglês Eddie Calvert (“O Mein Papa”, “Zambesi”, “Stranger in Paradise”, “The Man With The Golden Arm”, “Jealousy”, e tantos outros instrumentais famosos) que viria a falecer aos 58 anos, apenas dois anos depois da gravação destes discos. O produtor é o sul-africano John Gibson, cujos magníficos arranjos contribuiram para a longevidade de todas estas canções que podem agora ser de novo ouvidas com uma excelente qualidade sonora.

GAC: "... E VIRA BOM" (1977)

Edição da "Vozes na Luta"
Cooperativa de Acção Cultural S.C.A.R.L.

GAC - VOZES NA LUTA: "POIS CANTÉ!!"

Tudo mudou na música portuguesa depois de Abril de 74. A mais evidente das transformações assinalou o fim do exílio, da vida escondida e dos discos passados por debaixo do balcão para os muitos cantores de intervenção que desde os idos de 60 lutavam contra o regime. Passaram a ser as vozes dos discos mais procurados, que enchiam cantos livres, que se escutavam nas emissões de rádio e televisão, num ciclo de protagonismo da canção popular politizada (e na esmagadora maioria dos casos essencialmente panfletária) que conheceria fim a 25 de Novembro de 75. Inversamente proporcional, a criação e divulgação de géneros antes "eleitos", como o fado ou a canção ligeira (apelidada de “nacional cançonetismo”) acabou quase silenciada.
Em 1975, concretização da euforia musical que inundou as ruas e salas de espectáculo da cidade e província desde 74, os nomes do canto de intervenção chegaram, em massa, aos discos (num ano onde raras foram as fugas editoriais a este tronco politizado... e de esquerda). Salvo pontuais e raras excepções, a canção política do Portugal pós-revolucionário transformou-se num programa de princípios com evidente carga pedagógica e, sobretudo, ideológica. Defendia-se o poder popular, a reforma agrária, o combate ao capitalismo, a celebração do operário e do camponês. Tractores e enxadas viravam protagonistas em canções feitas sob certas regras implícitas que promoviam frequentemente a eficaz descodificação da mensagem, a repetição do slogan, a fácil memorização da melodia, a transmissão da ideia.
O GAC – VOZES NA LUTA foi fundado em casa de José Jorge Letria, no dia 30 de Abril de 1974, então ainda sob a designação de CAC-Colectivo de Acção Cultural. Essa foi precisamente a data em que o cantor e compositor José Mário Branco, um dos mentores do movimento, regressou do seu exílio em França. Pelos vistos, já tinha a ideia amadurecida e por isso tratou logo de a pôr em práctica. Para além dessa incontornável figura da música popular portuguesa estiveram ligados à fundação daquele movimento personalidades como Afonso Dias, Eduardo Paes Mamede, João Loio, Luís Pedro Faro (cuja formação etno-musicológica foi de especial importância), Nuno Ribeiro da Silva (que veio a ser mais tarde secretário de Estado num dos governos de Cavaco Silva), Toinas (Maria Antónia Vasconcelos), o poeta Manuel Alegre e a violoncelista Luísa Vasconcelos, entre outros (muitos deles oriundos da Juventude Musical Portuguesa).
No início o que se pretendia com este grupo era tão sómente apoiar as greves e outras manifestações que despontavam como cogumelos, chegando a haver um manifesto de intenções lido no 1º Encontro Livre da Canção Popular, a 6 de Maio de 1974.
O tempo viria no entanto a abrir cisões e a criar dissidências. Afastaram-se os músicos ligados ao PCP, depois os próximos da LUAR, mantendo-se firme o grupo associado à UDP. Em 1975, o GAC – VOZES NA LUTA nascia dos sobreviventes ideológicos do CAC, abdicando os envolvidos de qualquer manifestação individualista, destacando antes o trabalho colectivo e depurado do que então se criticava como "vícios burgueses".
O grupo concorre ao Festival RTP da canção com o tema "Alerta" e editará muitos outros singles , tais como "A Cantiga É Uma Arma" ou " A Ronda do Soldadinho". Estes singles serão , posteriormente, reunidos num LP intitulado "A Cantiga É Uma Arma".

Com o 25 de Novembro, os ânimos políticos arrefecem e o grupo começa a iniciar uma nova fase que passa pela recolha de temas tradicionais , recriados com novas letras da autoria do grupo ou com originais muito próximos da música tradicional.
Tal é o caso do LP "Pois Canté!!", editado em Abril de 1976. Este é um disco fundamental para a compreensão de todo o fenómeno posterior de recriação da música tradicional, feita por grupos como Raízes, Brigada Victor Jara, Vai de Roda, etc., fazendo inclusivé parte dos trabalhos discográficos que o jornal "Público", numa votação dos seus críticos musicais , considerou como dos melhores de sempre da música portuguesa.
Ouvido agora, a mais de trinta anos de distância, é evidente que as letras são profundamente datadas, demagógicas, e em que qualquer réstia de poesia se encontra ausente, sendo, nesse campo, um espelho fiel da realidade daqueles anos. Aliás, e como já tive ocasião de dizer em posts anteriores, apenas Sérgio Godinho conseguiu “dar a volta” ao panfletismo reinante, muito por mérito dos trocadilhos linguísticos, sempre tão presentes na sua obra. Nem mesmo o Grande José Afonso conseguiu distanciar-se de todo aquele imediatismo.

E no entanto, musicalmente, “Pois Canté!!” é ainda hoje de uma rara beleza auditiva, o mesmo se podendo dizer das magníficas interpretações que o atravessam do princípio ao fim. Sugiro portanto que se tentem abstrair das palavras, que se façam de estrangeiros sem perceber népia da língua de Camões e conseguirão ouvir “Pois Canté!!” em toda a sua riqueza instrumental e vocal.
Voltando à curta história do GAC, José Mário abandona o grupo ( que mantém a mesma designação) para se dedicar à militância política e ao teatro. Serão editados mais 2 LP's (" Vira Bom", em 77 e "Ronda da Alegria" em 78), na mesma linha do primeiro e antes do grupo se dissolver. Embora por vezes não se dê conta disso (talvez muito por culpa das tais letras panfletárias) esta trilogia do GAC – VOZES NA LUTA contribuiu de forma decisiva para o desenvolvimento de uma estética musical baseada na criatividade e na inovação, criando uma espécie de fusão dialética entre a linha musical de José Afonso (marcadamente urbana), as pesquisas de Michel Giacometti (notáveis percursos pelo Portugal musical rural) e o enquadramento clássico de Fernando Lopes-Graça.
Quem porventura se encontrar à espera que estes discos sejam editados em CD, acho melhor tirarem daí o sentido, a não ser que os responsáveis do “Tempo do Vinil” os tenham agendados para um futuro mais ou menos próximo. Até lá deliciem-se com a excelente qualidade sonora deste primeiro album dos GAC - VOZES NA LUTA, digitalmente transcrito a expensas próprias pelo vosso amigo Rato. O segundo, “…E Vira Bom”, em breve também será aqui recordado.

Terça-feira, Maio 27, 2008

RATO'S NOSTALGIA COLLECTION 47


DANIEL BACELAR: ANTOLOGIA

PARABÉNS ao DANIEL BACELAR que fez ontem 65 aninhos! Para assinalar a data, e também para satisfazer muitos pedidos, aqui fica de novo a Antologia dos anos 60. Julgo que para breve teremos a surpresa de o ouvir em gravações muito mais recentes.

Nasceu em 26 de Maio de 1943 e com 17 anos era dos poucos artistas a solo no ínicio da década de 60. Já nessa altura era considerado o Ricky Nelson português. Ainda hoje continua a ser um fã incondicional daquele grande Rocker americano, já desaparecido, integrando o seu clube de admiradores internacional.
Foi acompanhado pelos conjuntos: Abril Em Portugal, Gentlemen e Siderais. Ganhou em 1960 o concurso "Caloiros da Canção" da Rádio Renascença na categoria de artista a solo. O prémio, foi a gravação do seu primeiro EP, a meias com "Os Conchas" que ganharam na categoria de grupos.

Dos Benefícios do VINIL no Reino do CD

Há mais de vinte anos que o compact-disc, vulgo CD (inventado em 1979 e comercializado a partir de 1982), fez a sua entrada nos meios dos registos sonoros. Tinha por missão alcançar uma melhoria significativa no som, livrando-nos de todos os cracks e plops com que o VINIL usualmente nos brindava. Não falando nos primeiros anos de vida, em que o som debitado era realmente muito mauzinho, hoje pode-se de um modo geral reconhecer que tal missão foi alcançada. Melómanos à parte, cuja exigência de qualidade só muito raramente é satisfeita e sempre por intermédio de equipamentos super luxuosos cujo acesso está vedado à grande maioria dos amantes de música.
Mas apesar do salto qualitativo em termos de áudio, será que o CD conseguiu substituir o VINIL? Penso que não, porque tirando o som (e mesmo esse é discutível, visto que a faixa dinâmica e resposta do CD não supera em todos os quesitos as do VINIL – nomeadamente nas frequências extremas em que a “naturalidade” e a espacialidade se perdem) o CD nunca conseguiu ocupar o lugar do VINIL, sobretudo como objecto iconográfico de várias gerações de consumidores.
Se pensarmos que a área útil da capa de um CD é cerca de nove vezes inferior à de um long-playing de VINIL, facilmente se compreende a razão da impossibilidade de uma hipotética substituição. Na altura do lançamento do compact-disc privilegiou-se mais uma vez o lucro fácil (hoje já não é segredo para ninguém que o custo de fabrico de um CD representa menos de 10% do preço a que ele é tabelado comercialmente), não se tendo sequer pensado que as novas dimensões, de tão reduzidas, iriam inevitavelmente acabar com um dos grandes trunfos das edições em VINIL.
Refiro-me obviamente às capas e a todo o artwork a elas associado. Hoje em dia publicam-se livros ou fazem-se exposições sobre essas mesmas capas, divulgam-se os nomes dos artistas que deixaram a sua marca em muitos trabalhos discográficos. Mas na era pré-CD tudo isso estava implícito no objecto disco, ou seja, comprava-se pelo mesmo preço a música e a arte.
E quão diferente era a sensação de se ir a uma loja de discos, manusear dezenas e dezenas de exemplares até o nosso gosto pessoal eleger os felizes contemplados com um bilhete de ingresso às prateleiras da nossa casa. Seguia-se depois todo um cerimonial que conduzia à audição: a retirada do disco do seu invólucro, a colocação no prato do gira-discos, o acerto do nº de rotações, a passagem da escova “Emitex” pela superfície já em movimento, a suave descida da agulha na primeira espira da primeira faixa do primeiro lado.
E depois sentávamo-nos, com o album entre mãos. E se fosse daqueles de abrir (o nome técnico é “gatefold”), melhor ainda. E caso as letras viessem lá impressas então o contentamento era ainda maior, pois dáva-nos a possibilidade de seguir as músicas palavra por palavra. Foi assim que eu me habituei a ouvir e a amar a música nos meus verdes anos. O advento do CD, nos meados dos anos 80, acabou de vez com todos aqueles pequenos prazeres, as novas capas foram banalizando-se cada vez mais até incluirem apenas um grande plano do intérprete do disco, a maior parte das vezes de qualidade fotográfica inferior.
Têm-se feito algumas tentativas nos últimos anos visando conferir ao CD uma dignidade própria: são as edições cartonadas especiais, réplicas de albuns ou ainda caixas de antologias onde se inclui diverso material adicional, como pequenos livros ou luxuosos folhetos. E no entanto a solução sempre foi fácil, pelo menos pessoalmente já a pratico há alguns anos a esta parte: dei-lhe o nome de “album híbrido”, que no fundo não é mais do que a junção dos dois suportes musicais: o principal, a versão original do disco em VINIL e o secundário, o CD incluído na capa interior (desse modo pode continuar a usufruir-se de todas as vantagens do album em edição original e ouve-se a música em CD para assim preservar o VINIL).
Hoje em dia já tenho umas dezenas largas de albuns arquivados neste sistema “híbrido”, sobretudo aqueles a que me sinto mais ligado. É um pouco irónico, eu que de casamenteiro tenho muito pouco ou quase nada, andar sempre à procura de parceiros para os meus discos “solteiros”. Mas recomendo a todos os coleccionadores a adesão a este ritual – verão que não se arrependem.

Segunda-feira, Maio 26, 2008

GWENDAL A VOS DESIRS

Esta belissima capa assinada por Enki Bilal, o bem conhecido ilustrador de banda desenhada, nascido em Belgrado, na antiga Jugoslávia, pertence ao 3º album (1977) dos Gwendal, intitulado “A Vos Desirs” (conhecido por vezes como “Rainy Day”, tema que inicia o disco).
Grupo francês fundado no outono de 1972 por Jean-Marie Renard (guitarra acústica) e Youenn le Berre (flauta e sax), acumulando o primeiro também as funções de manager. Começam por se chamar Soporific String Band, nome que a editora altera antes mesmo da gravação do primeiro disco, em 1974, por ser uma designação muito pouco comercial.
Tendo como influência principal a música celta, o som dos Gwendal integra contudo vários géneros musicais (folk, jazz, rock e até clássico) o que, a par de arranjos modernos e bem ritmados, contribuiem para a grande variedade do seu repertório.
Depois de dois albuns essencialmente acústicos, o grupo electrifica-se neste terceiro LP com a inclusão da guitarra eléctrica (Roger Schaub) e da bateria (Arnaud Rogers). Completam a formação (que sofreria muitas transformações ao longo dos anos) Bruno Barre (violino) e Ricky Caust (guitarra e mandolin). O lado 1 do album retoma a música tradicional irlandesa dos primeiros trabalhos, onde se destaca o excelente “Rainy Day” logo a abrir; e todo o lado 2 é preenchido por uma suite com influências marcadamente jazzísticas, onde os solos de sax de le Berre fazem lembrar Archie Shepp ou Michael Brecker.
Um magnífico album que constitui um cartão de visita excelente ao universo musical dos Gwendal. A descobrir, para quem ainda não conhece.

Domingo, Maio 25, 2008

GIRLS AROUND THE WORLD

UK: Rolling Stones Records CUN 39108 (1978, June 16)
US: Rolling Stones Records COC 39108 (1978, June 17)


«It’s called “Some Girls” because
we can't remember their fuckin’ names!»
(Keith Richards)
Some girls give me money
Some girls buy me clothes
Some girls give me jewelry
That I never thought I'd own
Some girls give me diamonds
Some girls heart attacks
Some girls I give all my bread to
I don't ever want it back
Some girls give me jewelry
Others buy me clothes
Some girls give me children
I never asked them for
So give me all your money
Give me all your gold
I'll buy you a house back in zuma beach
And give you half of what I own
Some girls take my money
Some girls take my clothes
Some girls get the shirt off my back
And leave me with a lethal dose
French girls they want cartier
Italian girls want cars
American girls want everything in the world
You can possibly imagine
English girls they're so prissy
I can't stand them on the telephone
Sometimes I take the receiver off the hook
I don't want them to ever call at all
White girls they're pretty funny
Sometimes they drive me mad
Black girls just wanna get fucked all night
I just don't have that much jam
Chinese girls are so gentle
They're really such a tease
You never know quite what they're cookin'
Inside those silky sleeves
Give me all you money
Give me all your gold
I'll buy you a house back in zuma beach
And give you half of what I own
Some girls they're so pure
Some girls so corrupt
Some girls give me children
I only made love to her once
Give me half your money
Give me half your car
Give me half of everything
I'll make you world's biggest star
So gimme all your money
Give me all your gold
Let's go back to zuma beach
I'll give you half of everything I own
«American black rights leader Reverend Jesse Jackson described the title song of “Some Girls” as “vulgar and obscene”. It was also “an insult to coloured people”. Mr Jackson said he would be meeting singer Mick Jagger and representatives of Atlantic Records about his complaint. “We do not want to act like censors” he said, “but we feel that Mick Jagger has a social responsibility” (Daily Express, 22 September, 1978).
Atentando na letra de “Some Girls” facilmente se conclui ser a mesma apenas um conjunto de ditos espirituosos a respeito das mulheres. Mas na época foi o bastante para surgirem logo acusações de sexismo o que, diga-se de passagem, apenas contribuiram para o êxito comercial do disco.

Um album recheado de polémica este. A começar pela capa original (aqui mostrada, e da autoria de Peter Corriston) que enfureceu as actrizes Raquel Welch, Sophia Loren (esta oculta pela cara de Bill Wyman), Farrah Fawcett e Lucille Ball quando descobriram as respectivas fotografias pintalgadas na capa do disco. À distância de trinta anos não se percebe lá muito bem qual a razão de tanta agitação (o grafismo até faz lembrar um pouco Andy Warhol), mas o que é certo é que a capa foi corrigida, tendo sido retiradas todas as fotografias das actrizes presentes e não apenas das que na altura moveram processos contra a editora. A capa original sofreu posteriormente variadissimas alterações, conforme o país em que o album ia sendo editado. Entretanto as quatro cores de fundo presentes nas edições originais (em três diferentes variações de “ordem”) também desapareceram, sabe-se lá por que razão. Felizmente a contra-capa manteve-se inalterável, directamente inspirada em anúncios publicitários de lingerie dos anos 50.

Musicalmente, “Some Girls” é a resposta dos Stones ao Punk e ao Disco, muito em voga na segunda metade dos anos 70. Nesse sentido, “Miss You”, gravada em Dezembro de 77 e editada em single logo no início de 78 (com “Far Away Eyes” no lado B) é descaradamente Disco mas, como referia a revista Rolling Stone, tocada de um modo muito mais agressivo do que as genuínas. Ou seja, Os Stones embarcavam na onda da moda mas sem perderem as suas características de “enfants terribles”.
O album foi gravado em Paris, nos estúdios Pathé Marconi, entre 7 de Outubro de 1977 e 22 de Fevereiro de 1978. O engenheiro de som foi Chris Kimsey e todas as faixas foram compostas (exceptuando-se “Just My Imagination”, de Whitfield / Strong) e produzidas por Mick Jagger e Keith Richards. É o último grande album da banda numa altura em que, salvo algumas excepções, practicamente todos os grandes nomes da década de 60 já tinham saído de cena. Mas da parte dos Stones sente-se neste album que eles têm o intuito de manter certas ilusões a respeito dos eternos rebeldes do passado. Não se consideram ultrapassados, querem continuar na vanguarda do Rock.

Para além do Disco de “Miss You” («Mick told me that he wrote “Miss You” for me but he propably told lots of girls that», afirmou uma sorridente Jerry Hall em 2002), o album percorre vários géneros musicais: Country (a interessante balada “Far Away Eyes”, muito por causa da pronúncia de Jagger), Motown (a medíocre cover dos Temptations, “Imagination”) e Punk (o excitante tema final, “Shattered”), para além do Rock and Roll de sempre, claro. Dois dos meus temas favoritos (“Before They Make Me Run” e “Beast of Burden”) são da autoria de Keith Richards, sendo também de destacar o magnífico “Respectable”. As ovelhas ranhosas são, sem grandes dúvidas, a já citada “Imagination” e “When The Whip Comes Down”.
No geral um bom disco, com uma sólida secção rítmica, e que acabou por se tornar num dos mais vendidos da banda (nº 1 e 32 semanas nos EUA; nº 2 e uma permanência de 25 semanas nas tabelas inglesas). A consequência, para o melhor ou para o pior, é que contribuiu decisivamente para os Rolling Stones continuarem a usufruir por mais umas dezenas de anos do epíteto da “maior banda de rock and roll do mundo”.

Quinta-feira, Maio 22, 2008

CLUB ITALIANO

And specially to Michele Belli (hope your parents will be happy) here's this album again: Archie Silansky and his Orchestra, with Virginia Lee and Vasco Cordoni playing and singing italian favorites from the late Fifties. ENJOY!

OS FILMES DO DARIO

«Os contos de fadas estão repletos de coisas assustadoras. Uma velha tia minha contava-me muitas histórias cujas marcas ficaram definitivamente em mim. Muito embora a minha infância tenha decorrido num clima normal e sereno, acredito firmemente que essas histórias iluminaram o lado negro da minha imaginação.» (Dario Argento)

Filho de uma fotógrafa brasileira e de um produtor de filmes italiano, Dario Argento nasceu em Roma, Itália, no dia 7 de Setembro de 1940.
Fanático dos filmes de Hitchcock, Antonioni, Bergman e Mario Bava, Argento roda a sua primeira longa-metragem (“O Pássaro das Plumas de Cristal”) em 1969, depois de ter colaborado com Bernardo Bertolucci no argumento de “Once Upon A Time In The West”, de Sergio Leone. Como não podia deixar de ser tratava-se de um filme de suspense, um thriller, mas filmado já de um modo algo estilizado, pouco comum para a época. Ennio Morricone assina a partitura musical, a primeira de várias colaborações ao longo dos anos. Apesar do filme incluir diversas cenas violentas ornamentadas de mórbidos detalhes, o filme é inesperadamente um êxito no box-office internacional.

Argento, ainda um pouco surpreendido pelo grande sucesso obtido pelo seu primeiro filme, descobre deste modo o estilo que irá aprofundando ao longo dos anos: um misto de suspense e horror (este ocuparia cada vez mais o centro das atenções), com cenas de explícita violência mas filmadas de uma maneira algo subjectiva e onde a música se encontra sempre presente e assinada a maior das vezes pelos mesmos autores (Morricone, Simonetti, Pignatelli, Donaggio) o que também contribui para a “imagem de marca” da obra do realizador italiano.
«Não tenho medo de olhar para o meu lado escuro, não desvio o olhar quando vejo a violência do mundo à minha volta.» Desde sempre interessado pela psicanálise freudiana, Argento gosta de explorar os limites do medo no écran. Mas não prega sustos gratuitamente, está sinceramente interessado em analisar a angústia contemporânea.

Considerado uma referência básica do cinema de horror italiano, Dario Argento influenciou obras de realizadores actualmente muito conhecidos, como Quentin Tarantino, Brian de Palma, Wes Craven ou John Carpenter, que dirigiu “Halloween” em sua homenagem. Até Stanley Kubrick, um dos maiores mestres do Cinema, confessou ter sido influenciado por ele, sobretudo na utilização de cores e em certos movimentos de câmara.
Ainda em actividade, Dario Argento é hoje considerado um dos mestres absolutos do terror. As sua temáticas estão geralmente relacionadas com traumas infantis; os “seus assassinos” foram marcados na infância e movimentam-se num mundo próximo dos contos infantis dos irmãos Grimm ou do universo tortuoso de Edgar Allan Poe. Tecnicamente, os seus filmes apresentam sempre um estilo muito particular: longos travellings, o uso da câmara subjectiva, a inclusão frequente de close-ups (grande parte das vezes dos olhos dos assassinos), as cores e os ambientes barrocos a causarem impressionantes efeitos na tela. E a música, sempre a música a unir todos estes elementos visuais.
Presença habitual no Fantasporto, ainda recentemente, em Março, Dario Argento apresentou ali o seu último filme “La Terza Madre / Mother of Tears”, onde mais uma vez dirige a sua própria filha, Asia Argento. O filme é o capítulo final da trilogia iniciada em 1976 com “Suspiria” e que prosseguiu três anos depois com “Inferno”, duas das obras maiores da sua carreira. O argumento centra-se numa jovem estudante americana que inadvertidamente abre uma urna e desencadeia uma série de incidentes aterrorizadores. O gore no seu melhor.
Este CD reúne 15 temas originais de alguns dos filmes mais celebrizados do realizador italiano, como “Il Gatto A Nove Code”, “Profondo Rosso” (uma das bandas sonoras mais inovadoras dos anos 70, com música progressiva assinada pelo grupo pop italiano Goblin), “Suspiria”, “Inferno”, “Tenebrae” ou “Phenomena”. Enquanto todos estes filmes não são, inexplicavelmente, editados em Portugal (mas podem ser encomendados via internet, em lojas como a Amazon) esta coleção poderá servir de cartão de visita à obra de um dos nomes mais conceituadaos do Cinema de Terror.

Terça-feira, Maio 20, 2008

…Have you ever been to electric ladyland..?

Original Released in 1968, October 16
UK: TRACK 613008/9
US: REPRISE 2RS-6307
***
«…The magic carpet waits for you
so don't you be late
I wanna show you different emotions
I wanna run to the sounds and motions.
Electric woman waits for you and me
so it's time we take a ride
we can cast all of your hang-ups
over the seaside.
While we fly right over the love filled sea
look up ahead
I see the loveland
soon you'll understand…»

Gravado durante um ano (entre Julho de 67 e Agosto de 68) nos Plant Studios, em New York, este duplo album de Hendrix (o terceiro da sua curta carreira) é um dos clássicos incontornáveis de toda a história da música pop, onde géneros tão diferenciados como o rock, blues, psychedelia, soul ou jazz se misturam, dando origem a um som único que nenhum outro grupo, antes ou depois dos Experience conseguiu produzir. Criativamente é usualmente conotado, e com toda a razão, como o expoente máximo de Hendrix que atinge aqui todo o brilhantismo do seu génio.
Além dos outros dois componentes do trio (Noel Redding no baixo e Mitch Mitchell na bateria) Hendrix teve a colaboração de alguns dos músicos mais conhecidos da época: Dave Mason, Chris Wood, Steve Winwood, Buddy Miles, Jack Casady, Brian Jones e Al Kooper, entre outros. Este conjunto de estrelas só poderia originar um album tão excepcional como este, apesar dos conflitos ocorridos entre Jimi e os restantes membros do Experience, a maioria dos quais devidos ao seu obsessivo perfeccionismo em estúdio, que o levava a fazer incontáveis takes dos mesmos temas.
Seria, por isso mesmo, o derradeiro album do mítico trio e só dois anos depois é que Jimi conseguiu reunir uma nova banda para produzir outro disco, o “Band of Gypsys”, gravado ao vivo com Billy Cox e Buddy Miles, e editado em 1970 – foi o último album autorizado por Hendrix (“The Cry Of Love”, que encerrou a discografia oficial, já foi editado depois da morte do guitarrista, em 1971).
Entre outros temas inesquecíveis (por exemplo “Voodoo Chile” em duas versões diferentes, a mais longa das quais a durar uns bons 15 minutos) o album contém uma das covers mais célebres da história, o electrizante “All Along The Watchtower”, considerada mesmo superior à versão original pelo seu autor, mr. Bob Dylan himself !
O single com esse tema chegaria a 5º lugar nas tabelas inglesas, ficando-se pelo 20ª posição na Billboard americana. Todos os restantes singles extraídos do album apenas seriam classificados em Inglaterra, com destaque para “Voodoo Chile (Slight Return)” que chegaria a nº 1 dois anos depois, a 28 de Novembro de 1970. O album, por sua vez, seria nº 1 nos EUA e nº 2 no Reino Unido.

A capa do disco gerou uma grande controvérsia na altura. A ideia de Hendrix era colocar uma fotografia colorida de Linda Eastman que mostrava o grupo rodeado de crianças junto à escultura de Alice in Wonderland em Central Park, tendo chegado inclusivé a manifestar esse desejo junto à editora, a Reprise Records. Como resposta teve uma fotografia (da autoria de Karl Ferris), da sua cabeça, em tons vermelho e amarelo, estampada na capa.

Por outro lado, em Inglaterra, e devido a atrasos na remessa do album original, a Track Records produziu uma outra capa completamente diferente (da autoria de David King e Rob O’Connor), com 19 mulheres nuas fotografadas num fundo negro, algumas das quais segurando fotografias de albuns anteriores dos Experience. Alguns dos modelos eram na altura presença habitual nas páginas de revistas como a Mayfair ou a Parade, mas a maior parte delas foram contratadas por 5 libras em bares e clubes de King's Road, Chelsea. A fotografia foi tirada pelo nova-iorquino David Montgomery no seu estúdio de Londres, em Edith Grove.

Esta capa, que também desagradou pessoalmente a Jimi (chegou a comentar «it’s mostly bullshit»), constituiu no entanto uma imagem de marca de “Electric Ladyland”, preenchendo na altura todas as fantasias sexuais dos jovens fans e ajudando a criar toda uma aura sensual à volta de Hendrix, que na época era visto quase sempre rodeado por excitantes groupies. Algumas lojas de discos mais puritanas chegaram ao cúmulo de envolver o disco em sacos de papel, como se de uma revista pornográfica se tratasse.


Seja como fôr, a capa original inglesa era muito mais apelativa, convenhamos, do que a fotografia desbotada da edição americana. No entanto foi esta última que, muitos anos após a morte de Hendrix foi adoptada (por imposição dos herdeiros) como a oficial em todo o mundo, o que, consequentemente, transformou as cópias da edição original inglesa em items muito mais valiosos no mundo dos coleccionadores (a Record Collector atribui-lhe uma cotação base de 100 libras).

O vosso amigo Rato tem um desses tesouros na sua discoteca, uma primeirissima edição de valor inestimável (quer comercial quer sobretudo sentimental), da qual aqui fica apenas um cheirinho. Para além das músicas, é claro, directamente ripadas a 320 kbps da edição em CD de 1997. Estes dois ficheiros destinam-se evidentemente às novissimas gerações que por qualquer razão não tiveram ainda a oportunidade de escutar esta maravilha da história do Rock. Porque para todos os outros “Electric Ladyland” é já há muito tempo presença obrigatória numa qualquer prateleira.

Quarta-feira, Maio 14, 2008

NEIL YOUNG 69: THE 2ND ALBUM

Original Released on LP Reprise,
in 14 May, 1969
UK – K 44073 / US – MSK 2282

E toda a gente sabe que este foi o album que deu a conhecer Neil Young: o segundo na sua discografia e o primeiro onde conta com o suporte musical dos Crazy Horse, um grupo descoberto (e rebaptizado – chamavam-se The Rockets) por Young logo no início de 1969. À semelhança de Bob Dylan, que encontrou no grupo The Band o seu suporte ideal, também Neil Young e os Crazy Horse foram-se revelando, ao longo dos anos, como que as faces de uma mesma moeda, dada a cumplicidade existente, sobretudo a nível musical. No campo interpretativo o coro levemente desafinado dos Crazy Horse viria a ser reconhecido como uma das características mais marcantes do grupo.
Classificado em 2003 pela revista Rolling Stone em 208º lugar na lista dos melhores albuns de sempre, "Everybody Knows This Is Nowhere" contém três dos temas mais memoráveis de Young, “Cinnamon Girl” logo a abrir com aquele riff fabuloso e os longuissimos “Down By The River” e “Cowgirl In The Sand” (a fechar cada um dos lados do LP original) e que ao longo dos anos seriam presenças constantes nos espectáculos ao vivo, quer em versão acústica quer em versão eléctrica. Segundo o próprio Neil Young “Cowgirl In The Sand” foi composta em circunstâncias invulgares: «...escrevi isto com 40 graus de febre em Topanga. Deitado, a transpirar, com bocados de papel espalhados pela cama.»

Hello cowgirl in the sand
Is this place at your command
Can I stay here for a while
Can I see your sweet sweet smile
Old enough now to change your name
When so many love you is it the same?
It's the woman in you that makes
you want to play this game.
Hello ruby in the dust
Has your band begun to rust
After all the sin we've had
I was hopin' that we turn back
Old enough now to change your name
When so many love you is it the same
It's the woman in you that makes
you want to play this game.
Hello woman of my dreams
This is not the way it seems
Purple words on a grey background
To be a woman and to be turned down
Old enough now to change your name
When so many love you is it the same
It's the woman in you that makes
you want to play this game.
O que a princípio não passava dum estado febril, acabou por se transformar no grande tema do album. Estruturalmente, “Cowgirl In The Sand” é semelhante a “Down By The River”, com longos solos de guitarra crescendo gradualmente em intensidade até o eclodir da parte vocal que alivia um pouco o ambiente até começar a secção seguinte. Na realidade, Young gravou esta faixa com o máximo cuidado, de forma a conseguir uma sincronização perfeita entre as partes vocais e o trabalho de guitarras durante os coros.
Em “Round & Round” Neil tem também a colaboração de Robin Lane (a sua companheira na altura), numa excelente harmonia vocal.
“Everybody Knows This Is Nowhere” foi um album gravado em apenas duas semanas, sendo dos primeiros a introduzir o conceito “country-rock”, aqui na sua vertente muito mais rock do que country, com as guitarras a tomarem conta do barco, num caudal eléctrico onde sobressai a espontaneidade da voz de Young. Relativamente ao início da colaboração com os Crazy Horse, Young recorda:
«... conheciamo-nos mal, mas sentiamo-nos excitadissimos com o que estava a acontecer. Por isso quis gravar esse ambiente que nunca é captado nas gravações. E o album é isto, um documento dos nossos começos.»

Terça-feira, Maio 13, 2008

STILLS & YOUNG: "LONG MAY YOU RUN"

Original Released on LP Reprise, August 1976
UK: K 54081 / US: MS 2253
Na primavera de 1976, quando da gravação deste album, os caminhos de Stephen Stills e Neil Young continuavam em direcções opostas, desde de que os CSNY se tinham separado alguns anos antes – o primeiro em declínio, o segundo a manter intactas todas as suas qualidades musicais e de composição. Por isso não é de estranhar que esta “Stills - Young Band” tenha aparecido por sugestão de Stills, que procurava uma tábua de salvação para a sua carreira a solo.
Ao contrário das críticas negativistas saídas na altura da edição do album, em Agosto de 76, julgo que o tempo se encarregou de colocar as coisas nos seus devidos lugares e “Long May You Run” é ainda hoje um album muito agradável de se ouvir. São cinco faixas assinadas por Young e as restantes quatro por Stills, que repartem assim as interpretações dos temas.
Cerca de dois meses antes do album ver a luz do dia, o recém-criado grupo iniciaria uma série de concertos nos Estados Unidos, a qual seria no entanto abruptamente interrompida logo um mês depois, e de uma maneira algo deselegante por parte de Young, que practicamente desapareceu de circulação após o concerto de 18 de Julho no Coliseu de Charlotte, em Virginia. Stills, que entretanto já se encontrava em Atlanta à espera do companheiro para uma nova actuação, teve apenas “direito” a receber um lacónico telegrama de Neil: «Dear Stephen, funny how some things that start spontaneously end that way. Eat a peach, Neil.» Stills limitou-se a responder: «I have no future.»

Segunda-feira, Maio 12, 2008

LP ARTWORK ON EXHIBITION

As capas de discos de vinil foram uma “tela” explorada pelos movimentos artísticos do século XX. Guy Schraenen, comissário da exposição em curso (cerca de 800 capas da sua coleção pessoal) até ao dia 13 de Julho no Museu de Serralves do Porto, diz que são objectos de um mundo que já não existe.
«Há algo de mágico numa capa de um LP. Há algo muito táctil, há uma relação entre a capa e o disco, mesmo na forma como envelhece. O CD não tem ligação à vida.»
Visitada recentemente em Barcelona por 75 mil pessoas, «a exposição fala para muita gente: gente interessada em arte visual ou música, pessoas nostálgicas e também uma nova geração interessada nos Beatles ou nos Sonic Youth.»
Trabalhos gráficos de Joseph Beuys, Laurie Anderson, Keith Haring, Roy Lichtenstein e Andy Warhol (para os Rolling Stones, Velvet Underground, Aretha Franklin ou John Lennon), as capas do minimalista Sol LeWitt para Phillip Glass, o imaginário violento dos desenhos de Raymond Pettibon que ele ajudou a inscrever no universo dos Black Flag (e também a capa de “Goo”, dos Sonic Youth), e a estética militarista dos Laibach são destaques da exposição.

Guy começou a coleccionar nos anos 60, não pinturas ou esculturas, mas discos, livros, revistas e documentos. No caso das capas dos LPs que artistas conceberam para bandas pop/rock, aprecia o “espírito”, muito diferente do de hoje, com que as relações entre artistas visuais e músicos aconteciam. «Todo esse universo deixou de existir nos inícios da década de 80 com o aparecimento do CD. Os miúdos de hoje, ligados aos seus ipods, não terão a possibilidade de, no futuro, se lembrarem do que ouviam quando eram novos. Quando apagam um disco do ipod, apagam-no da sua vida.»
Mas apesar da desmaterialização da música, o vinil continua a merecer a preferência de melómanos, artistas visuais ou simples coleccionadores. As estatísticas demonstram até que têm ressurgido, porventura como reacção à banalização do objecto CD.
O disco de 1967 dos Velvet Underground ficou conhecido como o “disco da capa da banana”. Na edição original vinha com um autocolante que, depois de tirado (“peel slowly and see”) revelava por baixo uma banana sem casca, de cor avermelhada. Andy Warhol, com toda esta simplicidade criava uma capa muito forte e apelativa.
De igual modo, Richard Hamilton, pioneiro da Pop Art, tornaria célebre o album duplo “The Beatles”, em 1968. No extremo oposto da densa informação de “Sgt. Pepper’s” nasceria um objecto quase totalmente branco, apenas com o nome do grupo em relevo e um nº de série – opção irónica, como reconheceu, face às astronómicas vendas dos discos dos Beatles. Numa entrevista, o fotógrafo John Kelly, que assina parte das fotografias do poster interior, garantiu que a ideia de fazer uma capa branca foi sua: «Na altura fazia muitos trabalhos relacionados com moda e estava muito interessado no branco. Além disso, John Lennon também gostava de branco nesse período.»

Domingo, Maio 11, 2008

THOSE CLASSIC GOLDEN YEARS 40


Sábado, Maio 10, 2008

THOSE CLASSIC GOLDEN YEARS 39


Quinta-feira, Maio 08, 2008

PATXI ANDIÓN: 1969 >>> 1973

«Me asustan los héroes. Las posiciones lineales, admirables y claras. Algunos construyen su fama siendo fieles a su característica más eficaz, conocida y general.
Yo no he logrado mantenerme atrincherado en ninguna de ellas y por contra he conseguido vagar por mis aspectos más oscuros, desconocidos y banales.
Consumido por la fiebre de vivir, mi obra es mi vida y mis canciones sólo son pretextos para ese hálito que alimenta el sueño de los poetas y arde en el corazón de los rebeldes.
Vivir siendo libre.»
Palavras de Patxi Andión proferidas em Outubro de 1996, na cidade de Madrid, onde nasceu a 6 de Outubro de 1947, com o nome de Francisco José Andión González.
Gostava de cantar. Aos cinco anos apareceu pela primeira vez em público. Aos doze, formou o seu primeiro conjunto musical. Fez-se rockeiro. Cantava "Popotitos", “La Plaga” ou “El Rock de la Cárcel” em pequenos grupos pop, como Los Camperos, Los Silvers ou Los Dingos, dos quais não reza a história.
Logo depois, entrou num barco bacalhoeiro e chegou à Terranova.

«Fui um lobo solitário, toda a minha vida» - conta Patxi -
«Um lobo das estepes, que viveu mal e passou muita fome.»
Quando se fartou da aventura marinheira, lembrou-se da sua outra vocação, a música. E foi para Paris, porque adorava as canções de Brassens, de Brel, de Piaf, de Greco. Durou ano e meio a sua estadia na capital francesa. De guitarra na mão, cantava num recanto da estação de metro Odeón. Depois, num cabaret chamado "La Candelaria". E no "La Contrascarpe" e "L'Escale". Vagueava pelas caves de Montparnasse e pelos bares de alterne de Paris, quando os acontecimentos de Maio de 68 o despertam para a política e para as lutas estudantis. Volta pouco depois a Espanha para cumprir o serviço militar. Tem 21 anos.

Começa por compor para outros artistas, como Mari Trini, e em 1969 grava o primeiro disco, o single “Canto / La Jacinta”, a que se segue “Rogelio”, o seu primeiro grande êxito. Antes da década de 60 chegar ao fim publica o album “Retratos”, mas é o trabalho seguinte, o magnífico “(Once Canciones Entre Paréntesis)”, editado na segunda metade do ano de 1971 que o consagrará definitivamente, tornando-se um caso sério de popularidade em Espanha (e também em Portugal) durante os primeiros anos da década de 70.
Ainda antes, no início de 1970, vem a Portugal, onde numa entrevista à revista “Mundo da Canção” e a propósito da edição de um novo single (“Soneto 70” / “Si La Ves”), afirma:
«Creio que são canções de amor diferentes daquelas que até agora foram apresentadas em Espanha. O panorama no capítulo do amor resume-se a denguices e pieguices, não de Amor. O Amor é uma coisa que é muito bonita e é muito feia. Entendamo-nos: é uma coisa como a vida é; e se a vida ora é agradável ora o contrário, também o amor, que é a base dessa vida, oscila da mesma maneira. Há pois que aceitá-lo e vivê-lo como é, sem idealizá-lo, porque então deixa de ser o amor. O amor não pode ser lírico, porque desse modo pode perder a sua essência. Para se saber o que é o amor, é preciso que as pessoas se “manchem”. Uma destas novas canções, o “Soneto 70”, começa: “manchando-nos de amor, como es debido”.»
E mais adiante: «Canto para todos. E por mim. É importante que me entendam. Quando canto a qui em Portugal, marco bem o que digo, tentando facilitar o trabalho de apreensão por parte de quem me ouve. As minhas intenções resumem-se a intranquilizar as pessoas alienadas da realidade.»
Bandeiras de uma nova geração, as canções de Patxi Andion, entoadas na sua voz rouca, com forte pronúncia basca, falavam de vagabundos, bêbados, prostitutas, loucos, cães vadios..., toda uma realidade marginal raramente retratada na época por outros intérpretes ou compositores. Musicalmente a sua inspiração vai beber directamente às fontes, ao chamado folclore popular, sem que contudo deixe de utilizar melodias pop que lhe garantem também o sucesso comercial.
Esta Antologia compreende o período 1969 – 1973, no qual, para além dos dois primeiros albuns já citados, são editados “Palabra Por Palabra” e “Posiblemente”, em 1972 e ainda “A Donde El Agua”, em 1973.
São 42 temas distribuídos por um duplo CD, que reflectem os primeiros cinco anos deste intérprete inesquecível que ainda recentemente pisou o palco do Coliseu de Lisboa, integrado no espectáculo “Vozes de Abril”.
Deixo-vos com a letra do mais emblemático dos seus temas, o “20º aniversario… palabras” («Quando escrevi o "veinte aniversario" tinha apenas dezoito anos. Não tive mérito algum. Apenas tive a sorte, ou o privilegio, de ver essa história, de a projectar numa canção.»):

Veinte anos de estar juntos,
esta tarde se han cumplido,
para ti flores, perfumes
para mi...!Algunos libros!
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido,
! ya sabes cosas de viejos!
!Requemor de no haber sido!
Hace tiempo que intentamos
bonar nuestro Destino,
Tú bajabas la persiana.
Yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy En esta noche fría
casi como ignorando el sabor
de soledad compartida,
quise hacerte una canción,
para cantar despacito,
como se duerme a los ninos.
Y ya ves solo palabras,
sobre notas me han salido.
Que al igual que tú y que yo,
se soportan amistosas,
ni se importan ni se estorban,
mas non son una canción.
...Qué helaba está esta casa.
...Será que está cerca del Rio.
...O es que entramos en invierno.
...Y están llegando...
...Están llegando los fríos.
( El Arbujuelo , Soria, y a los 15 días del mes de Noviembre de 1970)

Quarta-feira, Maio 07, 2008

TONY CAMPELLO: ANTOLOGIA


Hoje o Rato teve uma agradável surpresa na sua caixa de correio - uma amável mensagem da esposa do Tony Campello - que passo a transcrever:
«Caro Rato:
Lemos hoje a Antologia I e II da Celly Campello. Está muito criativo e fiel. Tony e a Celly tiveram convite para cantar em Portugal mas não deu certo. Eles cantariam no Estoril. O Tony tem alguns lançamentos deles em Portugal, mas não tem todos. De qualquer forma foi uma surpresa muito agradável encontrar o seu blog. Eu sou a cunhada da Celly. Estou escrevendo em meu nome e do Tony.
Parabéns pelo seu trabalho.
Abraços.
Tony Campello/Mayra F.Campello»
São estas pequenas coisas que me recompensam por todo o trabalho gasto diariamente na realização deste blog. E como já tinha muitas solicitações para partilhar de novo esta Antologia do Tony Campello, ela aqui fica mais uma vez - são 30 canções, de 1959 a 1968, que dão uma amostra muito significativa das gravações efectuadas nesse período áureo da música brasileira.

Terça-feira, Maio 06, 2008

"HAROLD & MAUDE": THE SOUNDTRACK

“It has an amazing history. Anywhere I’ve ever gone, you name it, people have walked up and said, «I have to talk to you about this movie.» It’s a nice way to meet people”
(Bud Cort)
“Harold and Maude” (“Ensina-me a Viver” na tradução continental portuguesa, já que em Moçambique apareceu nas salas como “A História de Harold e Maude”) é um daqueles filmes cujo enredo não faz grande sentido contar. Um jovem de 20 anos, fã de cemitérios, simulador de suicídios e que se apaixona por uma velhota de 80? Julgo que hoje, tal como há trinta e tal anos atrás, seriam premissas mais do que suficientes para retirar público das salas de cinemas. E assim começou efectivamente por acontecer quando o filme se estreou nos EUA a 20 de Dezembro de 1971 – foi um autêntico flop no box-office.
Mas depois, pouco a pouco, as pessoas começaram a falar do filme, a passar palavra, a quererem que os amigos mais chegados pudessem usufruir também da pequena felicidade que era assistir durante hora e meia àquela original história. E a “corrente” foi crescendo, alargando-se cada vez mais, até tornar “Harold and Maude” naquilo que ele nunca mais deixou de o ser: um genuíno filme de culto, daqueles a que de tempos a tempos somos obrigados a voltar quando a falsidade em nosso redor volta de novo a tomar proporções insuportáveis. E constatamos, incrédulos, que o filme continua fresco e refinado como sempre, tendo atravessado as últimas décadas sem perder qualquer pedaço do seu charme inicial.
De algum modo é um filme na linha de um “Graduate”, que no outro dia já para aqui trouxe: o mesmo desajustamento social, a mesma procura das coisas importantes da vida fora do núcleo familiar. Aliás, uma temática que nos era muito familiar naquele virar de década, onde as rupturas com o establishment e o politicamente correcto eram o pão nosso de cada dia.
“Harold and Maude” é muito mais do que uma história de amor, se bem que fora dos padrões comuns Na sua essência estamos perante uma sátira social adornada de um humor negro muito peculiar. Hal Ashby, o realizador, soube manter a corda bem esticada entre o privado e o político, a comédia e o sentimentalismo, o grotesco e o banal, orquestrando uma balada, uma alegoria de vida e morte em que esta última acaba por ser a força redentora que liberta a primeira. Ou seja, para que Harold possa "começar a viver" Maude tem de lhe oferecer o sacrifício supremo, renunciando a essa mesma vida para desse modo o poder libertar, apesar de, em certo sentido, ter passado a fazer parte dele:

and if you want to be me – be me
and if you want to be you – be you
cos there’s a million things to do – you know that there are

Bud Cort e Ruth Gordon foram ambos nomeados para os Globos de Ouro de 1972, tendo Hal Ashby ganho o prémio da melhor realização no Festival Internacional de Cinema de Valladolid de 1974 por esta sua segunda longa metragem. Viria ainda a realizar alguns filmes importantes até ao fim dos anos 70 (casos de “Bound For Glory” em 1976 ou “Coming Home” em 1978) mas a partir do início dos anos 80 o seu trabalho foi perdendo interesse. Viria a falecer a 27 de Dezembro de 1988, de cancro no fígado, aos 59 anos.
Ruth Gordon tinha 75 anos quando desempenhou o papel de Maude e viria a falecer de ataque cardíaco a 28 de Agosto de 1985, com 88 anos.
DADOS TÉCNICOS:

Produção: Colin Higgins e Charles B. Mulvehill
Realização: Hal Ashby
Argumento: Colin Higgins
Fotografia: John A. Alonzo
Montagem: William A. Sawyer e Edward Warschilka
Direção Artística: Michael Haller
Guarda-Roupa: Bill Theiss
CAST:

Maude… Ruth Gordon
Harold… Bud Cort
Mrs. Chasen… Vivian Pickles
Glaucus… Cyril Cusack
Uncle Victor… Charles Tyner
Sunshine Doré… Ellen Geer
Priest… Eric Christmas
Psychiatrist… G. Wood
Candy Gulf… Judy Engles
Edith Fern… Shari Summers
etc.

“What was more interesting was, I’d done that project, I’d think of put it behind me. But then, over the years it’s just taken on so much importance. It’s a milestone, and a part of people’s memories, which they love… and I love it too. Other things disappear or assume smaller proportions. “Harold and Maude” just gets better and means more and more. It’s the rarest thing.
A film that gets better with age”
(Yusuf Islam, aka, Cat Stevens)
Um dos grandes trunfos do filme foi sem dúvida a sua banda sonora, composta pelas canções de Cat Stevens, na altura a viver o seu apogeu criativo. Essas canções ajustam-se que nem uma luva às imagens quer através das letras quer musicalmente. E o mais curioso é que a grande maioria foi retirada de dois albuns já existentes no mercado: “Mona Bone Jakon” e “Tea For The Tillerman”, ambos de 1970. As duas únicas novidades, compostas expressamente para o filme foram os temas “Don’t Be Shy” e “If You Want To Sing Out, Sing Out”.
Dada a edição recente daqueles dois albuns, não foi considerada importante na altura a saída de um novo album com a inclusão completa das canções que apareciam no filme. Apenas no Japão apareceu uma pequena edição pirata rotulada de banda sonora que rapidamente desapareceu da circulação para desgosto de possíveis coleccionadores. Em meados da década de 80 aqueles dois temas apareceram por fim editados legalmente no "2º Volume dos Greatest Hits" de Cat Stevens. Mas não era isso que os verdadeiros fãs queriam. Esses queriam uma verdadeira banda-sonora do filme, com a s palavras “Harold”, “Maude” e “Soundtrack” estampados na capa.
Tivemos todos de esperar 37 anos, tempo mais do que suficiente para Cat Stevens ter mudado de nome, trocado as luzes da ribalta pelo recolhimento religioso e ter por fim regressado à gravação de novas canções. Mas a espera é capaz de ter valido a pena. Numa altura em que os tempos do vinil estão pouco a pouco a regressar, o aparecimento de uma edição especial para colecionadores nos fins do ano passado representou a concretização de um sonho já muito antigo. A edição foi limitada (apenas 2,500 unidades) pelo que rapidamente se esgotou. Felizmente consegui a minha cópia a tempo (apesar de ter dispendido quatro vezes mais do que o preço "oficial") e ela aqui está, em todo o seu esplendor.
O autor deste projecto chama-se Cameron Crowe, um coleccionador obsessivo de bandas-sonoras e também escritor, director, produtor e arquivista em part-time, que durante os últimos três anos meteu mãos à obra, ajudado pela sua própria editora, a Vinyl Film Records, e também pela Paramount, que produziu o filme. E, claro, contou também com a ajuda do Senhor Yusuf Islam, o regressado Cat Stevens.
O resultado (Vinyl Films VFR-2007-3) é excelente!
Desde logo a inclusão óbvia de todos os temas, incluindo versões alternativas e instrumentais, e prensados em vinil colorido, com oito cores diferentes à escolha (a minha cópia é em rosa claro-escuro). Vem também incluído um single de 7 polegadas com versões demo dos dois temas extras, também impresso em vinil colorido (no meu caso é branco) e acompanhado de uma pequena folha manuscrita com as letras das duas canções. Isto tudo vem inserido num dos lados da dupla capa (gatefold), a qual, no seu interior, apresenta uma montagem fotográfica de uma série de imagens relacionadas com o filme: livros, fotos, bilhetes, contas, singles, posters, enfim, uma autêntica parafernália de “Harold and Maude”.
No outro lado da capa encontra-se um grande envelope onde se pode ler “Harold & Maude Publicity Kit 25 Stills”, que é uma cópia do envelope na altura enviada à imprensa com fotografias para promoção do filme. No interior encontramos um catálogo com 36 páginas, recheado de fotografias originais e com histórias, curiosidades (sabiam que Elton John chegou a ser abordado para o papel principal?) e depoimentos de todos quantos estiveram envolvidos na produção do filme. A finalizar dois posters gigantes, um de Cat Stevens, a preto e branco, e outro com o poster a cores da edição japonesa do filme.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

HERMAN'S HERMITS: "BLAZE"

Original Released on LP MGM SE-4478 (1967/09)
Herman's Hermits were one of those odd 1960's groups that accumulated millions of fans, but precious little respect. Indeed, their status is remarkably similar to that of the Monkees and it's not a coincidence that both groups' music was intended to appeal to younger teenagers. The difference is that as early as 1976, the Monkees began to be considered cool by people who really knew music; it has taken 35 years for Herman's Hermits to begin receiving higher regard for their work. Of course, that lack of respect had no relevance to their success: 20 singles lofted into the Top 40 in England and America between 1964 and 1970, 16 of them in the Top 20, and most of those Top Ten as well. Artistically, they were rated far lower than the Hollies, the Searchers, or Gerry & the Pacemakers, but commercially, the Hermits were only a couple of rungs below the Beatles and the Rolling Stones.
While Herman's Hermits couldn't keep up with the revolutionary sounds created in 1967 by the Beatles, Cream, or Jimi Hendrix, they did manage to release pop records that steadily revealed maturity, especially evident on Blaze, their final MGM studio release. At the helm once again was producer Mickie Most, who incorporated production (and studio musicians) on par with his burgeoning Donovan hits (whose "Museum" is covered here) and similar sounding material by the Hollies. The lyrical content continued to mature with Ray Davies-style subject matter previously highlighted by "There's a Kind of Hush" and "Dandy."

Unfortunately, the teen idol image of front man Peter Noone was becoming a double-edged sword, as he was starting to be replaced by a new generation of teen idols, while not being able to make the transition into hip 1967. The original cover, a kaleidoscopic view of the band members in Sgt. Pepper-type threads, wasn't enough to regain their declining credibility. Blaze has a short running time at only five songs per side but includes great lost pop songs like "Last Bus Home," "I Call Out Her Name," and "Upstairs, Downstairs." MGM put out The Best of Herman's Hermits, Vol. 3 and called it a day with the band, leaving Blaze to languish as an unappreciated pop gasp.

Domingo, Maio 04, 2008

TOMMY GARRETT: VIVA MEXICO!

Original Released on LP Liberty SLBY 1312 (1966)

W.C. LAUGHING CAVALIER (1969)

The Wallace Collection is a Belgian group founded in 1968. The mixture of pop, jazz and classical influences gave birth to a brand new sound, a sound that was set to make a career and to mark the identity of the band: the typical sound of the Wallace Collection.
The newly formed band (that was named 'cause of the art gallery of the same name in London) didn’t hide its ambitions and to realize these, it needed a manager who knew the business. The musicians decided to entrust the management to the one person who would be capable to allow them to make recordings in England. In fact, this was the big dream of every musician in that fabulous era and that was the challenge Jean Martin had undertaken to confront.
Jean Martin went to EMI in London. At the time, EMI was not only the biggest and most famous of all record companies in the world, but also the most prestigious, considering the artists they represented. The greatest pop groups of all times were there to be found: The Beatles, Pink Floyd, The Hollies, The Shadows, Joe Cocker…. to mention but a few.

Loaded with the demo tapes of the group, Jean Martin made quite an impression to David Mackay, a producer at EMI who had just arrived from Australia, and Jean convinced David to come to Brussels, the capital of Belgium, to see the Wallace Collection perform on stage.
The meeting took place in a club that was hot, and this resulted in a first contract. In essence, Raymond Vincent composed the titles that made the repertoire of the band, while the texts were delivered by Sylvain Vanholme and David Mackay.Singing was assured either by drummer Freddy Nieuland (specialised in vocals), or by guitar player Sylvain Vanholme.
When the group was ready, it started to perform at different venues in London, for instance at the famous Marquee. Very quickly they made an overall good impression, quite remarkable for a band coming from the continent then.The quality of the six musicians (who, by the way, never made appeal to any studio resident musicians and who played altogether not less than twenty different instruments) gained them the reputation of journalists and professionals in the business, of being the best European group right after The Beatles.

In February 1969, EMI chose a track called “Daydream” to launch the career of the group, because this tune contained a fade-out similar to the one of “Hey Jude” by The Beatles, who had had a smash hit with this in the whole world the year before.
EMI was right: Daydream (taken from the first Wallace Collection album, called “Laughing Cavalier”) took the hit parades by storm in the whole world.It became number one in more than twenty countries! The “Laughing Cavalier” album in general (recorded in Abbey Road by the audio engineer Geoff Emerick) was even considered by Beatles producer George Martin, as being the best to emanate during the year 1969!

Many, many different versions from “Daydream” saw the light of day: In France, for instance, Claude François jumped on the song, which he recorded under the title of “Rêveries”; as a result, the Wallace themselves responded by publishing their own French version under that same title.
The present edition - in original mono - of that 1st album (with seven bonus tracks) was edited in France by Magic Records in 1998. And it was re-uploaded here for the second time.

Sábado, Maio 03, 2008

THE BEAT OF THE POPS 21

Yes, my friends, it's the comeback of the Pops! And, let me be the first to say, a return in a very stylish way - a groovy collection for your senses to enjoy. Rato didn't lost his special way to please you all.

PARIS, MAY 68: 40 YEARS ALREADY!

On 2 May 1968, the administration shut down the Sorbonne, the university in the heart of Paris, locking out the students. Four days later, 20,000 students, teachers, and supporters marched on the Sorbonne. It was the first move in what became a near revolution fought out on the streets of Paris. Trains stopped running. Airports closed. Mail and telephone communications were cut. Barricades were erected.

The Sorbonne was re-opened by the authorities, and was promptly occupied by students and declared an "autonomous People's University". One of the students leaders and a key figure in the events of May '68, was Daniel Cohn-Bendit, aka "Danny the Red".

Paris, 7 May 1968. Some of the worst fighting took place in the Latin Quarter. Students hurl paving stones at police in the Rue St. Jacques. The police respond with yet more tear gas.

Students reading the last news

The fightings in Paris lasted for nearly four weeks. Buses and cars were overturned and set ablaze, 422 people were arrested. Over 600 were seriously injured.

Sexta-feira, Maio 02, 2008

«Viddy well, little brother. Viddy well»

“As aventuras de um jovem cujos principais interesses são a violação, a ultra-violência e Beethoven".

Assim rezava a publicidade a este pesadelo Orwelliano capturado em filme por Stanley Kubrick. O realizador acrescentava tratar-se de uma sátira social sobre o condicionalismo psicológico, um conto de fadas sobre o castigo, enfim uma história construída à volta de um mito fundamental da natureza humana. Mas o cinéfilo mais elementar sabia já na altura que as explicações pouco importavam. O que interessava, realmente, em primeiro e último lugar, era que se tratava de um filme de Stanley Kubrick. Tudo o mais era acessório.

Deve ter sido o filme por cujo visionamento mais esperei (e desesperei) em toda a minha vida. E que mais dinheiro me fez saír das algibeiras. Depois de uma ante-estreia nos EUA, em 19 de Dezembro de 1971, o filme faria a sua estreia comercial em Londres, logo no início de 1972, a 13 de Janeiro, quase quatro anos depois da estreia do último Kubrick, o também inesquecível “2001 Odisseia no Espaço”.

Os ecos do estrondoso êxito depressa chegaram aos quatro cantos do mundo, inclusivé, claro, a Moçambique, onde então eu me encontrava a viver. Tendo já, nessa altura, uma admiração ilimitada pela obra conhecida do realizador (por causa da sua “Lolita”, “Dr. Strangelove”, “Horizontes de Glória” e acima de todos o já citado “2001”), comecei a ler sofregamente tudo quanto conseguia encontrar sobre o novo filme o qual, sabia-se então demasiado bem, nunca iria ser visto em telas portuguesas.

O tempo passava, a lenda crescia e a vontade de ver aquele filme passava a obsessão. Até que no Verão de 73 vim de férias à metrópole e a distância para Inglaterra reduziu-se drasticamente. Era chegada a altura, até porque já corriam rumores que o filme iria sair de cartaz brevemente devido a todo o tipo de pressões a que fora sujeito durante aquele ano e meio de exibição em terras de Sua Majestade. Finalmente, uma quinta-feira, dia 30 de Agosto de 1973, apanhava o avião rumo a Londres. E no dia seguinte, logo ao início da tarde, dirigi-me ao local onde o filme estava a ser exibido. Era um complexo de três ou quatro pequenas salas chamado Cinecenta, não muito longe de Picadilly Circus. Comprei o bilhetinho mágico e sentei-me. A grande espera tinha chegado ao fim.

«There was me, that is Alex, and my three droogs, that is Pete, Georgie, and Dim, and we sat in the Korova Milkbar trying to make up our rassoodocks what to do with the evening, a flip dark chill winter bastard though dry.»

Era esta a primeira frase do filme, dita após um encadeado de cores (vermelho, azul e laranja) introduzirem, ao som da música para o funeral da Queen Mary de Henry Purcell, um grande plano do rosto maquiavélico de Malcolm McDowell e iniciarem um longo travelling para trás, percorrendo todo o Milk Bar Korova.

Mesmo sem dominar muito bem na altura a língua inglesa (e ainda com a agravante do calão “inventado” para os diálogos) a expectativa foi largamente excedida - aquele punhado de imagens e sons deixou-me completamente siderado, desde a frase inicial até à derradeira «I was cured, all right!». Resultado: passei ali o resto do dia, tendo visto o filme mais duas vezes de seguida. E nas vésperas de regressar a Portugal, alguns dias depois, iria ainda “despedir-me” num quarto e último visionamento e comprar também o LP da banda sonora para me acompanhar na viagem (depois, ao longo dos anos, perderia de vez a conta das vezes a que assisti a este filme – mas têm sido umas larguissimas dezenas).

Felizmente a censura então existente em Portugal não chegava ao ponto de nos impedir de viajar e por isso abençoada hora a que resolvi ir a Londres; é que, passado pouco tempo, foi mesmo o próprio realizador quem mandou retirar o filme do circuito de exibição em Inglaterra devido inclusivé a ameaças de morte frequentemente recebidas. Na altura Kubrick afirmou que apenas depois da sua morte o filme poderia regressar aos écrans ingleses. O que veio efectivamente a suceder - só após o falecimento do realizador, a 7 de Março de 1999, é que "A Clockwork Orange" voltou a ser exibido legalmente em Inglaterra – foram 25 anos em que muita cópia pirata deve ter circulado de mão em mão. Em Portugal, entretanto, teve de ser feita uma revolução para o filme poder pisar solo lusitano, em Dezembro de 1974 (em Moçambique apareceu ainda antes, em fins de Julho, onde o vi mais duas vezes no Teatro Scala de LM - lembro-me perfeitamente de ostentar para com os amigos uma atitude um tanto ou quanto "superior", por já ter visto quatro vezes algo que eles iam assistir em primeirissima mão e cerca de um ano depois!)

Muitas foram as discussões, as mesas redondas que em diversos países foram confrontando os aspectos sociais, morais e políticos que o filme abordava. O próprio Kubrick contribuía, embora involuntariamente, para esses intermináveis dossiers de opinião através das várias entrevistas que concedeu na época. Essas questões, de interesse reduzido ou mesmo nulo para a compreensão do filme, andavam sempre à volta da violência ou da frágil flor de estufa do chamado livre-arbítrio. E os debates eram tanto mais anacrónicos quando eles próprios aparecem corporizados no próprio filme (nas figuras do capelão, do ministro e do escritor, entre outros).

Nada disto interessava realmente, porque sendo o filme sempre circular, todas as teses e todas as antíteses se anulam ou voltam para trás; de facto, os polícias comportam-se como vadios e os vadios passam a ser bravos polícias. O ministro do Interior conservador e o escritor trabalhista manipulam Alex da mesma forma. Esta forma circular do filme acentua ainda a busca sempre recomeçada e nunca satisfeita do desejo: a sexualidade instaura-se pela via da carência. Se o percurso de Alex é completamente frenético, entre a imaturidade e o desejo nunca satisfeito, é porque ele tem tudo a dar e a receber ao mesmo tempo de si mesmo. Alex tem de inventar completamente o seu Édipo, se assim se pode dizer, porque tem como progenitores uns pobres de espírito.

“2001” foi até onde Hollywood nunca chegou e “A Clockwork Orange” agita-se alegremente onde Hollywood mil vezes nos conduziu: à violência, ao espectáculo, à sublimação, à catarse..., mas reinventa-os! Kubrick mistura livremente o chocante e o irónico com o humor negro. O personagem do guarda da prisão (Michael Bates) parece saído directamente dum sketch dos Monty Phyton, enquanto que os pais de Alex são basicamente estúpidos e embuídos de um sentimentalismo piegas. No quarto Alex tem uma escultura representando um conjunto de Cristos em posição de chorus line e comete um assassínio com uma escultura fálica.

A contribuição de “A Clockwork Orange” para a quebra de antigos tabus no Cinema não foi feita apenas através da nudez e da violência sexual apresentadas, mas sobretudo pela estética geral do filme onde se destacam os originais e bizarros cenários e uma atitude misantrópica que envolve anarquia, sadismo, comédia negra e um profundo cinismo do poder governamental. Neste filme a sistemática desmontagem dos mitos e dos símbolos, das instituições e dos seus processos tem uma dimensão épica.

E esse processo é-nos apresentado em sucessivos quadros em que, à importância da imagem, da cor, do movimento e das palavras, a música e a sonoridade assumem integralmente a importância da sua parte. Filme de som, de sonoridade, em que a música é projectada para além do espaço criado pelas imagens e para além do espaço imaginado pelo espectador.


Ainda as palavras de Kubrick: «as aventuras de Alex são uma espécie de mito psicológico. O nosso subconsciente encontra alívio em Alex como o encontra nos sonhos. Sofre ao ver Alex amordaçado e castigado pelas autoridades, enquanto uma boa parte do nosso consciente confessa que é necessário que assim seja». Esta afirmação de Kubrick contem a ideia retomada de diversas maneiras pelos críticos: O público que aplaude uma dada passagem violenta ou erótica não se apercebe que o sujeito do filme é ele próprio... jogo irónico de reflexos entre o público e o objecto da sua fascinação - o sexo e a violência.

CURIOSIDADES:
Kubrick chegou a afirmar que se Malcolm McDowell não se encontrasse disponível, provavelmente nunca teria realizado o filme. O realizador tinha visto quatro ou cinco vezes “If” (um filme de Lindsay Anderson, que acabara de lançar o actor num personagem – Mike Travis – retomado depois em “O Lucky Man” e mais tarde em “Britannia Hospital”) e só descansou quando conseguiu a colaboração de Malcolm.

As esculturas no Bar Korova são da autoria da artista Liz Jones, que se inspirou em trabalhos de Allen Jones.
Devido à coagulação do leite sob as luzes do estúdio, Kubrick exigiu que de hora a hora todos os copos fossem esvaziados, lavados e enchidos de novo.
Nas paredes do Bar encontram-se diversos quadros, um deles a pintura de uma mulher nua. Esse mesmo quadro aparece em “The Shinning”, realizado por Kubrick em 1980.

No livro, o apelido de Alex nunca é revelado. "DeLarge" é uma referência a uma passagem no livro na qual Alex se denomina a si próprio "Alexander the Large" enquanto se entretem a violar duas moças de 10 anos (no filme têm bastante mais idade).

Durante a filmagem da cena do tratamento Ludovico, Malcolm McDowell sofreu um arranhão numa das córneas, tendo ficado temporariamente cego. Na cena da humilhação em palco partiu duas costelas. E na cena em que os antigos compinchas (agora polícias) lhe mergulham a cabeça num fétido bebedouro de porcos, ia-se afogando dado toda aquela sequência ter sido filmada num só take, sem interrupções.

A cobra de estimação de Alex (Basil) foi introduzida por Kubrick no filme ao aperceber-se de que Malcolm tinha a fobia de répteis.

A banda sonora de “2001: A Space Odyssey / 2001: Odisseia no Espaço” (filme realizado por Kubrick em 1968) encontra-se bem visível no escaparate da loja de discos. Outras capas de discos que com alguma atenção se podem ver na loja: “Lorca” (Tim Buckley), “Atom Heart Mother” (Pink Floyd), “Déjà Vu” (Crosby Stills Nash & Young), ou “After The Gold Rush” (Neil Young), tudo albuns de 1970.

Antes de Kubrick se envolver no projecto, Mick Jagger chegou a ser abordado para o desempenho principal, ficando os droogs a cargo dos restantes Stones. Tim Curry e Jeremy Irons recusaram também o papel.

A cena de violação em casa do escritor é baseada num ataque que quatro GIs americanos levaram a cabo contra a mulher do autor do livro, Anthony Burgess, quando o casal se encontrava a viver na Malásia. Em consequência dessa agressão a mulher viria a sofrer um aborto.

No filme, as referências fálicas abundam: a cobra a subir por entre as pernas da mulher do poster; os chupa-chupas das moças na loja de discos; a ponta da bengala de Alex; o objecto de "arte" usado por Alex para matar a mulher dos gatos.

Malcolm McDowell escolheu a canção "Singin' in the Rain" para entoar durante a cena da violação, porque era a única da qual sabia a letra, resolvendo deste modo o problema de Kubrick que já desesperava pela melhor maneira de filmar essa cena.

O automóvel usado pelo gang chamou-se “Adams Probe 16” tendo só sido feitos três modelos.

Para filmar a tentativa de suicídio de Alex, sob a perspectiva do próprio, foram atiradas 6 câmeras Newman Sinclair do edifício até que se conseguisse captar a chegada ao solo em posição frontal.

De acordo com Malcolm McDowell a cena acelerada de sexo a três, ao som da “abertura de Guilherme Tell”, e que no filme dura 1 minuto e 20 segundos, levou 28 minutos a ser filmada.

A cena em que Julian (um treinador de body building chamado David Prowse) leva Alex ao colo desde a entrada até à sala interior da casa do escritor foi filmada 48 vezes. Prowse ficou de tal maneira exausto que Kubrick "condescendeu" um pouco na filmagem da cena seguinte em que Prowse transporta o escritor em cadeira de rodas – foram apenas necessárias 6 takes.

A linguagem falada por Alex e o seu bando foi inventada por Anthony Burgess, que a apelidou de "Nadsat": uma mistura de inglês, russo e calão. Algumas das palavras são tiradas directamente da língua russa: droog (amigo), malchick (rapaz), korova (vaca) ou moloko (leite). Kubrick chegou a recear o uso excessivo de tal linguagem no filme, tornando-o pouco perceptível para o público. Tal receio veio a revelar-se totalmente infundado.

O nome do filme, "A Clockwork Orange", é baseado numa expressão coloquial britânica, «as queer as a clockwork orange» («tão original como uma laranja mecânica»).

O filme foi nomeado para 4 Oscars: Filme, Realização, Montagem e Argumento-Adaptado, não tendo conseguido qualquer uma das estatuetas. Mais uma vez a Academia mandava às urtigas um filme charneira da história do Cinema. Tal como em Inglaterra, onde também só teve direito a nomeações (sete), para os BAFTA. Prémios só viriam da parte de críticos (de Nova Iorque e Kansas City) e jornalistas (do Sindicato Italiano)

Em 2007, o American Film Institute classificou “A Clockwork Orange” no 70º lugar dos Melhores Filmes de Todos os Tempos.

FICHA TÉCNICA:
Produção: Stanley Kubrick
Argumento: Stanley Kubrick, segundo a novela de Anthony Burgess
Cinematografia: John Alcott
Música Original: Walter Carlos
Montagem: Bill Butler
Direcção Artística: Russell Hagg e Peter Shields
Cenários: John Barry

Guarda-Roupa: Milena Canonero

CAST:
Malcolm McDowell .... Alex DeLarge
Patrick Magee .... Frank Alexander
Michael Bates .... Chief Guard Barnes
Warren Clarke .... Dim/Officer Corby
John Clive .... Stage Actor
Adrienne Corri .... Mrs. Alexander
Carl Duering .... Dr. Brodsky
Paul Farrell .... Tramp
Clive Francis .... Joe the Lodger
Michael Gover .... Prison Governor
Miriam Karlin .... Cat Lady
James Marcus .... Georgie
Aubrey Morris .... P.R. Deltoid
Godfrey Quigley .... Prison Chaplain
Sheila Raynor .... Mrs. DeLarge (Em)
Madge Ryan .... Dr. Branom
John Savident .... Z. Dolin
Anthony Sharp .... Minister
Philip Stone .... Mr. DeLarge (Pee)

etc.

Saíu agora a edição especial em 2 DVDs, com o filme digitalmente remasterizado (uma significativa melhoria, sobretudo ao nível do som, visto a anterior edição ser em mono e esta em magnífico 5.1), com comentário audio de Malcolm McDowell e do historiador Nick Redman. No Disco 2 incluem-se três documentários, dois sobre o filme o outro sobre o actor, sendo qualquer deles bastante elucidativo e interessante.

Quinta-feira, Maio 01, 2008

THE TURTLES ARE HAPPY!

Original Released on LP White Whale WW 114 (1967)
The Turtles' best known album, which includes the hits "Happy Together" and "She'd Rather Be With Me". This Rhino 1983 re-issue also includes an extra song, "So Goes Loves", not present in the first release. A very enjoyable album from this American pop group of the sixties.

MORREU O "PAI" DO LSD

Albert Hofmann, o pai acidental da droga psicadélica mais potente do mundo, morreu anteontem, dia 29 de Abril, de ataque cardíaco na sua casa perto de Basileia, na Suíça, aos 102 anos de idade. Terá morrido “feliz e satisfeito” por ter visto “a renovação da investigação científica da psicoterapia à base de LSD”.
A imagem projectada por este homem, nascido em Baden em 1906, doutorado em 1929 pela Universidade de Zurique, que vivia numa pacata vila do Jura e trabalhou sempre (até 1971) para a empresa farmacêutica Sandoz, hoje Novartis, não corresponde a alguém que tomou ácido centenas de vezes ao longo da vida, a droga predilecta do movimento hippie nos anos 60. Imagina-se um severo cientista de comportamento tão impecável como a sua imaculada bata de laboratório, mas Hofmann defendeu sempre o LSD enquanto “medicamento da alma” – não só contra doenças do foro psiquiátrico como a esquizofrenia, mas também para combater a superficialidade humana dos tempos modernos.

Tudo começou na sexta-feira 16 de Abril de 1943. Hofmann estava a repetir, no seu laboratório da Sandoz, em Basileia, experiências com a “dietilamida de ácido lisérgico-25”, o vigésimo quinto composto que fabricara a partir da chamada ferrugem do centeio. Nesse dia, Hofmann começou subitamente a ter vertigens (sob o efeito de uma ínfima dose de LSD-25 que pingou na sua mão e que terá inalado ou absorvido através da pele). Como não se conseguia concentrar, decidiu ir para casa, onde passou o resto do dia mergulhado em coloridas alucinações.

Na segunda-feira seguinte, regressou ao laboratório já recuperado e convencido que o estranho estado mental do fim-de-semana se devia ao LSD-25. Para o confirmar tomou, desta vez deliberadamente, um quarto de grama – uma dose pelo menos cinco vezes maior do que é necessário para ter alucinações. Temendo ficar doente, pegou na bicicleta e foi para casa – mas a trip apanhou-o a meio caminho. Para os adeptos do LSD, aquele dia será para sempre recordado como o “dia da bicicleta”.

Hofmann publicou mais tarde um relato da sua experiência contando que, na altura, pensou que tinha enlouquecido. Desta vez, a trip foi má e Hofmann teve alucinações aterrorizadoras. No dia seguinte, os efeitos tinham desaparecido e Hofmann sentia-se “perfeitamente bem”.
Os efeitos do LSD são espectaculares; é literalmente a droga dos efeitos especiais. Em particular, surgem alterações na percepção do tempo e do espaço e as sensações visuais tornam-se extremamente vívidas. A música pode evocar sensações visuais e a luz produzir impressões sonoras. A viagem começa 30 a 60 minutos depois da ingestão e dura cerca de 10 horas. No entanto, podem também acontecer flashbacks alucinatórios durante anos sem que a pessoa tenha novamente consumido ácido.

Para além disso, tal como a segunda trip de Hofmann no dia da "bicicleta" já o deixava prever, as experiências são muito variáveis e pessoais e podem ir – conforme a personalidade, as expectativas, e o ambiente em que o LSD é consumido – do maravilhoso ao pesadelo. Há quem sinta um tal pânico e manifeste sintomas tão marcadamente psicóticos que precisa de ser hospitalizado.

Entretanto, o LSD começou a ser utilizado para fins puramente recreativos. Entre as pessoas que o experimentaram e que divulgaram as suas experiências encontram-se celebridades como o escritor Aldous Huxley e o actor Cary Grant.

A festa acabou em 1966, quando a imprensa começou a revelar os casos de jovens que se atiravam pela janela, que se tornavam psicóticos, ou que olhavam para o Sol até ficarem cegos (estima-se que, nesse ano, houvesse quatro milhões de utilizadores norte-americanos). Quando o LSD se tornou ilegal, Leary e outros gurus da geração psicadélica foram presos nos EUA, no meio de um violento debate social. O consumo de LSD continua hoje, embora com menor impacto.
(Ana Gerschenfeld in “Público”, 1 de Maio de 2008)
O MUNDO FOI PSICADÉLICO
"Lucy In The Sky With Diamonds". John Lennon insistiu que fora inspirada por um desenho do filho Julian, mas uma sigla nada disfarçada no título e as vívidas imagens grafadas em verso (the girl with caleidoscope eyes; rocking horse people eat marshamellow pies) tornaram-na sinónimo de LSD. Para uma geração que procurava o colapso de um mundo "velho", corporizado pela geração que os antecedia, o ácido criado por Albert Hoffman representou o "novo" à espera de revelação.

Tinha a caução literária de Aldous Huxley, que defendera em “As Portas da Percepção e Entre o Céu e a Terra” o uso de drogas alucinogéneas como porta de entrada para "o milagre da Criação". Tinha o apoio do psicólogo Timothy Leary que, durante a década de 1960, pela defesa empenhada do estudo e utilização de LSD, se tornaria proscrito pela comunidade científica enquanto era erguido a ícone da contracultura hippie.

Em 1965, Kim Fowley editara "The Trip", considerada a primeira canção a referir directamente o uso da droga. A incitação inicial, misto de perversidade e inocência (Summertime is here kiddies / And it's time to take the trip), disparava o tiro de partida para a era psicadélica, uma das marcantes e influentes na história da música popular urbana.

Por essa altura, os Grateful Dead viajavam pelos Estados Unidos com o colectivo Merry Pranksters (liderado por Ken Kesey, futuro autor de "Voando sobre um Ninho de Cucos"), criando a banda sonora dos Acid Tests, happenings onde a música ácida e convulsiva da banda, a par das luzes faiscantes e das projecções simulando lava de cores berrantes, potenciava os efeitos do LSD distribuído gratuitamente aos participantes. Pouco demoraria até que tais manifestações, subterrâneas, contaminassem grande parte da criatividade da época.

Na costa oeste americana, bandas como os Jefferson Airplane ou os Country Joe & The Fish faziam da sua música um espelho da experiência psicadélica - os primeiros transformaram Alice no País das Maravilhas na trip "White Rabbit", os segundos imaginaram o Presidente Lyndon Johnson a comer flores e beijar crianças sob o efeito da droga.

O poderoso colorido surrealista suscitado pelo LSD transformou para sempre a música pop, que se libertou lírica e sonicamente num vibrante caleidoscópio de experiências - do rock"n"roll, que é também jazz cósmico, que é também ficção científica, de “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd, ao “I Can See For Miles” dos The Who ou ao “Are You Experienced?” de Jimi Hendrix. Onde quer que a influência da cultura pop se fizesse sentir, registaram-se ecos da transformação. Na Alemanha, bandas como os Can ou os Neu! adaptaram-na à frieza mecânica germânica, enquanto no Brasil os Mutantes lhe davam exuberância tropical e, no Portugal a preto e branco do Estado Novo, José Cid cantava com os Quarteto 1111, no single "Monstros Sagrados", algo como a minha geração tomou pastilhas multicores e partiu na longa viagem.

No momento em que Paul McCartney revelou, em entrevista à televisão britânica, o consumo de LSD, tornou-se oficial aquilo que, de qualquer modo, estava já visível aos olhos de todos. Quer os seus actores consumissem ou não LSD - interessava tanto a experiência real quanto a reprodução desse imaginário - a música era psicadélica, a moda era psicadélica, a publicidade era psicadélica e o cinema, com o fenómeno teen Monkees a estrear o delirante "Head", com "Easy Rider" e a sua famosa cena de trip no cemitério, também o era.

A ressaca que se seguiu - por excesso de ácidos, pelo desmoronar da utopia escapista de 1960 - marcou o fim do psicadelismo como fenómeno transversal. As suas manifestações, contudo, mantiveram-se presença constante até à actualidade. Estão nas espirais místico-dopadas dos Spiritualized, estão na cultura rave, herdeira dos Acid Tests dos Merry Pranksters, estão na multiplicidade de músicos, do guru psicadélico Julian Cope ao artesão digital Caribou, que continuam a extrair e inventar novas matérias criativas dos sons e da estética desses anos 1960 pintalgados com várias gotas de LSD. (Mário Lopes)