Segunda-feira, Março 31, 2008

JMB: "Mudam-se os Tempos..."

Tal como se referiu no post dos "Sobreviventes", este album foi apresentado no dia 26 de Novembro de 1971, em Lisboa, no Cinema Roma, juntamente com o EP introdutório à obra do Sérgio Godinho. Sem a presença dos dois músicos, na altura exiliados em França, a sessão foi transmitida em directo pelo "Página Um" da Rádio Renascença, um programa da autoria do jornalista Adelino Gomes. Ambos os trabalhos musicais foram passados na íntegra, bem como entrevistas dos dois intérpretes feitas a partir de Paris. Recorde-se que, à semelhança dos "Sobreviventes", também este album foi gravado no Strawberry Studio do Chateau d'Hérouville, onde anteriormente tinha sido gravado o mítico "Cantigas do Maio" de José Afonso (com produção e direção musical do próprio Zé Mário Branco).
Estes dois albuns de estreia do Sérgio e do Zé Mário foram efectivamente duas obras que contribuiram decisivamente para agitar a música portuguesa dessa altura, que parecia perdida (José Afonso à parte) num beco sem saída. Esse "abanão" traduziu-se numa nova dinâmica da canção, quer em termos musicais quer em termos de linguagem poética.
Neste "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" (título premonitório do que estava para vir) vinha incluído um texto de apresentação de José Duarte que aqui se recorda:
«Primeiro em afirmações definitivas num jornal cor de rosa, depois em cantigas do amigo D. Dinis, a seguir com canções em circuito concêntrico, por fim numa esplanada de Paris - assim conheci José Mário Branco. Estamos perante um mural sonoro de Portugal das últimas gerações, um mural onde as cores são a mordacidade, a caricatura: uma simbologia transparente com tipos populares: uma grande romaria viva e em movimento. Um mural onde os temas são a emigração e o regresso, as guerras e os senhores, a juventude perdida, a esperança sem fundo, o medo e os fantasmas, o tempo e as novidades; tal como em "Perfilados de Medo", a linha quebrada de sons electrónicos é uma interferência, uma ameaça na arquitectura vocal e obstinada do arranjo do medo. Assim, esta obra combate uma tradição onde a palavra é o som mais inteligível. Assim se encerra a fase confusa da nova música portuguesa. Assim se inaugura uma época nova onde também cantar bem e compôr melhor serão condições a exigir à canção útil; da afirmação da palavra à desafinação das cordas, à percussão das peles e teclas, à imaginação nos arranjos, à criação melódica, à vocalização justa: aqui o circo foi desmantelado com todas as ferramentas do som».
"Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" tornar-se-ia num expressivo sucesso público, vendendo rapidamente a sua primeira tiragem de 5000 exemplares.

EASY DELIGHTS 3


Domingo, Março 30, 2008

CLYDE BARROW & BONNIE PARKER

They're young...
They're in love...
and They kill people!

Filme charneira do final da década de 60, "Bonnie & Clyde" deve grande parte do seu êxito e carisma a uma identidade de propósitos e desespero entre as gerações dos anos sessenta e as da época conturbada da grande depressão económica.

No início da década de 30, nos EUA, existiram, em carne e sangue, dois gangsters de reputação lendária. Bonnie e Clyde roubavam bancos, ajudavam os camponeses, eram auxiliados por negros e brancos pobres, encarnando em si um ideal de justiça social que a depressão e os seus anos de fome haviam afastado há muito da sociedade norte-americana.

Roubando e matando depois (entrando numa engrenagem de que desconheciam as regras, mas de que suspeitavam o aliciante), Bonnie e Clyde transformaram-se num dos mais famosos casais de foras-da-lei de toda a América.

Clyde, de metralhadora em punho e estranhamente impotente no amor; Bonnie, compondo poesia da sua vida aventurosa nos intervalos dos assaltos; ambos personificando a falência de um humanismo que os tornou reais. Eles, e ainda os outros que os rodeiam, os perseguem, prendem, auxiliam, encobrem ou matam, todos compõem o retrato de uma nação, de um povo, de uma época.

O filme deu em 1967 o tiro de partida para a “nova Hollywood”: a geração dos Coppola, Lucas, Spielberg, De Palma, etc., que tomaram de assalto a cidadela dos estúdios e nesse processo rejuvenesceram o cinema americano.

O argumento, que esteve para ser filmado por Truffaut (que o declinou por já estar comprometido com o filme “Fahrenheit 451”), acabou por ficar nas mãos de Warren Beatty, que decidiu entregar a direcção a Arthur Penn. Este, desiludido com os cortes sofridos por "The Chase / Perseguição Impiedosa", decidira abandonar o cinema. Mas a história entusiasmou-o. Bem assim como as condições em que a mesma prometia vir a ser rodada: inteira liberdade de acção, assegurada por Beatty, que funcionava como produtor, depois de ter conseguido um adiantamento reduzido de Jack Warner.

Nunca foi segredo para ninguém a dívida do filme de Penn e, por extensão, de toda essa geração de cineastas americanos, para com o cinema europeu, e, sobretudo, a frescura e a espontaneidade da Nouvelle Vague. Mas talvez só agora, a 40 anos de distância, se consiga perceber quão assumida essa dívida foi em toda a feitura de “Bonnie & Clyde”

Mesmo antes de sabermos que Benton e o seu (já falecido) co-argumentista David Newman tinham proposto o filme a Truffaut e que eram devotos de Godard, já desconfiávamos que “Bonnie & Clyde” era uma versão americana do “A Bout de Souffle / O Acossado” (1959). A publicidade americana da estreia parecia fazer questão de o sublinhar, embora talvez inconscientemente: «Eles são jovens, estão apaixonados... e matam gente».

Tal como “O Acossado” de Godard procurava recriar a poesia urbana do film noir também “Bonnie & Clyde” pegava nos lugares-comuns do filme de gangsters para baralhar as pistas de modo inesperado, subvertendo as convenções do género de um modo que faria escola durante os anos que se seguiram.

Veja-se a introdução, os primeiros cinco minutos (que comungo com o próprio realizador o facto desse período de tempo ser a chave de todo o filme): os “raccords” mal-amanhados, o plano em contrapicado de Faye Dunaway a descer as escadas, a fotografia queimada pelo sol texano, tudo parece sugerir um certo amadorismo de quem quer brincar aos filmes de época sem ter unhas para tocar guitarra. É, evidentemente, deliberado: ao fim desses cinco minutos Penn já esclareceu que não, que não vai ser um filme como os outros, e que estes dois miúdos embevecidos um pelo outro vão olhar para a vida de gangster como uma grande aventura, uma brincadeira de miúdos.

Define-se aí em grande parte aquilo que tornou “Bonnie & Clyde” como alegoria da contra-cultura, com o gang Barrow (proletários a quem a Grande Depressão roubara o “sonho americano”) equiparado a uma geração de jovens ainda presa no colete de forças de uma sociedade pouco aberta à diferença e com o Vietname no horizonte.

Depois, há ainda um ritmo: intercalado de situações burlescas e de cenas de uma violência trágica, desgastante, envolvente. Ao ritmo trepidante de uma balada do velho Oeste, que serve de pano de fundo a toda uma série de perseguições, sucede-se o crepitar medonho de metralhadoras despejando a morte (propositadamente, o volume de som durante as cenas de tiroteio era mais elevado do que no resto do filme.

Como curiosidade anedótica, refira-se que na estreia em Inglaterra, o projeccionista, tendo-se apercebido das diferenças de volume num pré-visionamento, tomou cuidadosamente anotações das partes «mais altas» para durante a projecção poder baixar o volume de som e assim "corrigir" o que pensou tratar-se de um defeito da cópia a ser exibida)

A uma cena de amor impossível nos campos verdes, selvagens e livres, justapõem-se os últimos olhares de um casal vestido de branco crivado de balas e jorrando sangue de mil chagas, sangue vermelho, vivo e quente (a extrema violência da cena final, filmada num ralenti hábil e poético, provocou grande controvérsia na altura, por, segundo alguma crítica moralizante, atrair a simpatia pelo jovem casal de criminosos).

Heróis ou anti-heróis, Bonnie e Clyde são acima de tudo pessoas cuja “fúria de viver” mascara uma energia que o conforto do sonho americano afogava, e não é acaso que a sua morte ocorra quando se começava a desenhar a possibilidade de uma “conformação” a uma existência mais pacata, a um certo “aburguesamento” se quiserem.

Após algumas hesitações no que respeita à escolha da actriz que iria viver a personagem de Bonnie (Jane Fonda não aceitou o papel por na altura residir em França e não se querer deslocar aos Estados Unidos), o filme foi rodado no estado do Texas, tendo custado cerca de 2.5 milhões de dólares. A estreia mundial ocorreu no Canadá, no Festival do Filme de Montréal, a 4 de Agosto de 1967 (eu vê-lo-ia pela 1ª vez em 2 de Abril de 1968, uma terça-feira, no Teatro Scala em Lourenço Marques, faz a próxima quarta-feira precisamente 40 anos!).

A crítica não gostou e o próprio Jack Warner odiou o filme. Em Novembro o filme estreia-se na Europa e é um sucesso instantâneo. Os críticos americanos, envergonhados, voltam à plateia e dão o dito por não dito: afinal, "Bonnie & Clyde" é um grande filme. Mas Bosley Crowther, no New York Times, diz três vezes que não. Na última foi despedido, após muitos anos de «bons e leais serviços». Foi a última vítima de Bonnie e Clyde.

E o filme tornar-se-ia num fenómeno à escala mundial, acabando nomeado para os Oscars pela própria indústria que começara por lhe torcer o nariz (embora, das nove nomeações que recebeu, apenas tenha concretizado duas, nas categorias “menores” de fotografia e actriz secundária – Estelle Parsons).

Do êxito ao mito foi um salto. Bonnie e Clyde surgem em cartazes, discos ("The Ballad of Bonnie & Clyde", interpretada por Georgie Fame, ficarai célebre), propaganda, vestuário, moda. Vendem-se carros, boinas, vestidos, fatos, cartazes, revistas. Warren Beatty e Faye Dunaway invadem todos os domínios, inquietantes...

Cite-se ainda a interpretação de Faye Dunaway e Warren Beatty, que fazem de Bonnie e Clyde dois dos muitos anjos caídos, homens desalojados da sua condição, figuras à procura de um lugar, mas recusando entrar no único jogo que lhe indicam possível. Como secundários, Gene Wilder estreava-se no cinema e Gene Hackman iniciava uma notória carreira com uma nomeação para os Oscars.

Saíu agora, em DVD, a edição especial do filme em dois discos. Contrariamente a outras “edições especiais” que apenas baralham e voltam a dar para mais uns ganhos fáceis, esta vale mesmo a pena: para além da superior e significativa qualidade do som e da imagem (comparativamente à edição anterior) contém um excelente “making of” de Laurent Bouzereau que só por si vale a pena adquirir este DVD: 65 minutos divididos em três partes, onde toda a equipa e elenco prestam declarações sobre o processo de criação, rodagem, pós-produção e estreia (aproveite-se entretanto para constatar as mazelas que o tempo se encarregou de urdir nessas pessoas).

Vem ainda incluído um outro documentário, de qualidade inferior, do Canal de História: “Love and Death: The Story of Bonnie & Clyde” (43 minutos), mas que tem o interesse de comparar o enredo do filme com a verdade histórica. Presentes estão ainda duas cenas cortadas, os testes de guarda-roupa de Warren Beatty e os respectivos trailers de Cinema.

Sábado, Março 29, 2008

SG: "OS SOBREVIVENTES" (1972)

Lisboa, Cinema Roma, 26 de Novembro de 1971. Numa sessão conjunta promovida sem a presença dos dois músicos (que contudo enviarIam um depoimento gravado em Paris e lido na altura pelo jornalista Adelino Gomes), eram apresentados o EP “Romance de um dia na estrada” de Sérgio Godinho (uma espécie de cartão de visita para o album de estreia “Os Sobreviventes”, editado pouco tempo depois, nos princípios de 1972) e o album “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” de José Mário Branco. Ambos gravados em França, no recentemente inaugurado Strawberry Studio, localizado no Chateau d’Hérouville, nos arredores de Paris. Ambos peças-chave num processo de revolução musical que, depois das primeiras pistas de José Afonso, encetavam a ideia de uma música moderna em Portugal. Uma revolução que chegava de Paris.

O disco exibe uma impressionante versatilidade de abordagens a estéticas musicais diversas e uma paleta igualmente diversificada de temas e caminhos no coração das palavras. Apesar de ter sido retirado do mercado português pouco depois de editado, “Os Sobreviventes” não só garantiu a imediata revelação de Sérgio Godinho, como lhe trouxe o primeiro de muitos prémios: o de melhor autor de letra, atribuído em finais de 1972 pela Casa da Imprensa. Nas entrelinhas passava uma mensagem de luta e esperança: «a liberdade está a passar por aqui», cantava em “Maré Alta”, como que a dizer: «agarrem-na»!

GALARZA 75

Edição Original em LP Alvorada LP-S-50-87 (1975)
Este magnífico album instrumental homenageia três dos mais importantes nomes da chamada música de intervenção portuguesa: José Afonso, Sérgio Godinho e José Mário Branco. São doze temas inesquecíveis, sendo apenas dois deles posteriores a Abril de 74. Habituados que estamos a ouvir todas estas canções cantadas (e não apenas tocadas) esquecemo-nos frequentemente das grandes melodias que estavam por detrás das palavras (sabidas de cor e salteado, muitas delas até mesmo à exaustão). Mas estas belas orquestrações de Galarza vêm-nos lembrar, precisamente, a qualidade exemplar das melodias do Zeca, do Sérgio e do Zé Mário. Disfrutem, que a experiência vale a pena; ainda por cima servida por um som fabuloso.

Sexta-feira, Março 28, 2008

EASY DELIGHTS 2


Quinta-feira, Março 27, 2008

EASY DELIGHTS 1


Terça-feira, Março 25, 2008

RATO'S INSTRUMENTAL COLLECTION

Uma nova coleção do Rato, intitulada "Easy Delights" está quase a iniciar-se. Trata de música instrumental, ou melhor, de música orquestral, atendendo a que são as orquestras o centro das atenções e não os grupos ditos instrumentais, tipo Shadows.
Trata-se de algo que ao longo dos meses os leitores assíduos deste blog me têm sugerido e acho que chegou a altura de os satisfazer. Além dos meus discos pessoais irei socorrer-me de muita coisa que vou encontrando nas minhas andanças pela net, pois como se sabe, existem centenas de blogs dedicados exclusivamente à música instrumental nas suas mais diversas vertentes: exotica, lounge, easy listening, etc. Independentemente do significado destas palavras, o único critério que tenciono seguir será o meu gosto pessoal que englobará certamente todas essas variantes, muito embora apenas o melhor dos melhores.
“Easy Delights” porquê? A razão é dupla: é que para além das delícias musicais, em que o chamado easy listening ocupará a parte de leão, tenciono aproveitar o ensejo e presentear-vos também com outras delícias mais terrenas que ocuparão a capa e verso dos sucessivos volumes. Afinal nada de novo, pois é algo que há muito já foi levado à prática, como o demonstra a recente coleção dos "Sounds Electronic" que acabei agora mesmo de partilhar com todos vós.


A new Rato’s collection named "Easy Delights" is nearly to begin. It concerns instrumental music, or better, orchestral music, because orchestras are the centre of attention, rather than the self-named instrumental groups, like the Shadows.
This is something that over the months the usual readers of this blog have suggested to me, and I think the time has come to satisfy them. Besides my personal records I will add many things which I found everyday in my travels trough the net, because, as you know, there are hundreds of blogs devoted exclusively to instrumental music in its many different genres: exotica, lounge, easy listening, etc.. Regardless of the meaning of these words, the only criterion that I intend to follow will be my personal taste that certainly will involve all of those variants but only the best of the best.
Why "Easy Delights" ? There are two reasons for it: beyond the music delights, in which the so-called easy listening will take the lion part, I intend to take the opportunity and present you also with other delights which will appear on the front and back covers of the different volumes. After all nothing new, because it is something that has been done for a long time, as you may find in the recent "Sounds Electronic" collection that I’ve just have shared with you all.

Domingo, Março 23, 2008

PAUL MAURIAT: 1968-69

Domingo, Março 16, 2008

THOSE CLASSIC GOLDEN YEARS 38


Sexta-feira, Março 14, 2008

OS BEATLES ARTIFICIAIS?

Ao folhear o nº 13 da revista “Mundo da Canção” de 15 de Dezembro de 1970, deparou-se-me um curioso texto sobre a separação dos Beatles e a sua importância relativamente a outros grupos da época. Por ter a assinatura de uma figura de destaque da música portuguesa não resisti a relembrar aqui esse texto. Que comentário lhe mereceria o seu autor, quase quarenta anos depois?
O desaparecimento dos Beatles é uma lacuna que fica para sempre na Pop Music. No entanto não é irremediável para a continuação dessa Pop Music. Os Beatles há mais de quatro anos que eram um conjunto de estúdio e aí muitas deficiências podem ser disfarçadas. Os Beatles também há algum tempo brincavam com o mau gosto como por exemplo em “Ballad of John and Yoko” e “Ob-la-di, Ob-la-da” embora o seu último LP “Let It Be” seja das suas melhores obras. No entanto os tempos de “Yesterday”, “Here, There and Everywhere” e “Sgt. Pepper’s” iam longe e alguns conjuntos como Led Zeppelin, Cream, Blood Sweat and Tears, Chicago, Creedence Clearwater Revival e Crosby, Stills, Nash & Young, menos artificiais, e actuando ao vivo vinham a ganhar terreno na consciência dos que se interessam por «estas coisas» da Pop Music. Os Beatles desapareceram, talvez nunca mais produzam nada em conjunto mas actualmente, a sua perda não é tão terrível como teria sido há cinco anos atrás. Os Beatles já não eram os melhores, eram simplesmente um dos melhores o que é diferente.

Os Cream constituíram o melhor trio até hoje conseguido na Pop Music. Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker dois anos depois de se desligarem musicalmente foram cotados em Melody Maker como o melhor solista, o melhor viola-baixo e o melhor baterista do ano. Mais do que isso eles fizeram escola e constituíram um movimento de toda a música progressiva de hoje com a dos Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Mothers Of Invention, etc...
Por isso os Cream não acabaram, eles estão bem vivos em toda a música actual, mais do que os próprios Beatles cujas obras continuam a ser «embaladas luxuosamente» por todas as orquestras afinadinhas do mundo.
Os Beatles ou os Stones? Já não se pode fazer a pergunta porque os primeiros abandonaram mas a subida ao trono pelos Stones não é uma vitória por desistência, é simplesmente uma vitória.
Os dois grupos formaram-se ao mesmo tempo mas os Beatles deram-se mais depressa a conhecer através de uma publicidade mais bem feita, primeiro: não desagradar totalmente aos «menos novos», segundo: cabeleiras sim, mas penteadinhas e lacadas, terceiro: ar inofensivo, quarto: fatos de corte irrepreensível com gravata e assim os papás ficavam enternecidos a ouvir os seus filhos cantar “Eu quero agarrar a tua mão”, “Gosto de dançar contigo”, etc... enquanto os Rolling Stones cantavam blues e country sound, como se tivessem nascido em Harlem ou Louisiana ou Nova York, deixando crescer desordenamente o cabelo, aparecendo em palco sem concessões ou «sorrizinhos» para capas de revista. O facto de terem sido perseguidos pela imprensa, censura e entidades oficiais inglesas e americanas fez com que toda a juventude se alinhasse atrás deles e a perseguição teve efeito contrário. Mick Jagger torna-se o símbolo da Juventude actual naqueles dois países e o mesmo começa a acontecer na Europa.
Numa época em que a publicidade pode ter importância decisiva no lançamento de um grupo os Stones nunca se serviram dela mas, muitos sectores da imprensa internacional se utilizaram deles tentando colocá-los em xeque. De nada valeu. Ei-los no seu trono, o de personalidade, de bom gosto, de intransigência.


Este texto é da autoria de José Cid, que no Quarteto 1111 e logo no ano seguinte, em 1971, comporia uma canção – homenagem intitulada “Ode to The Beatles”. Ele há coisas...

THOSE CLASSIC GOLDEN YEARS 37


Quinta-feira, Março 13, 2008

"EM ÓRBITA": OS MELHORES DE 1970

Aqui se trancreve, com a devida vénia, a classificação e os respectivos comentários da equipa do programa “Em Órbita” para os 15 melhores temas de 1970. Como sempre é uma listagem que vale o que vale, onde algumas escolhas estarão a mais e onde, ao contrário, faltarão outros temas fundamentais daquele ano. Mas pelo menos o declarado “vencedor” coincide com a escolha do Rato que nessa altura o elegeu também como o melhor do ano, e, nos anos que se seguiram, como o melhor de sempre. Até hoje!
15 - “Nothing That I Didn’t Know” (Procol Harum)
Os Procol Harum perderam no ano transacto um dos mais fortes argumentos da sua personalidade aquando da saída de Matthew Fisher. A inclusão de “Nothing That I Didn’t Know” no número das melhores gravações de 1970 é contudo o reconhecer das inegáveis qualidades de um grupo intransigente que não tem cedido aos caprichos da moda. Uma gravação que denuncia o rigor de um conjunto de músicos que tem vindo a explorar até à exaustão um estilo muito próprio.

14 - “The Game Is Over” (John Denver)
Sem dispôr de uma capacidade inovadora fora do comum, John Denver conquistou-se, no decurso de 1970, para o grupo dos que melhor defendem as intenções deste programa. “The Game Is Over” vem reafirmar a crença numa música popular despida de artifícios falaciosos, cortina de espesso fumo deitada sobre a incapacidade de motivar o que é belo.

13 – “Peace Frog” (The Doors)
Os Doors continuam a compor um dos mais polémicos agrupamentos de hoje. Praticamente duma forma desencantada de música popular, amantes do desequilíbrio, da violência e da provocação, as suas criações assumem, desde os primeiros dias, as proporções dum interminável combate. “Peace Frog” é o mais representativo trabalho dos Doors do ano findo.

12 – “Lucretia Mac Evil” (Blood, Sweat And Tears)
Blood, Sweat and Tears, um grupo onde a justeza de execução se sobrepõe às demais qualidades. “Lucretia Mac Evil” exemplo das suas melhores produções, enferma do defeito único de se fechar num esquema formal onde as hipóteses de progresso são quase nulas. O futuro dos Blood, Sweat and Tears fecha-se nos limites do previsível. “Lucretia Mac Evil”: uma gravação perfeita saída do trabalho de músicos de craveira excepcional.

11 – “The Only Living Boy In New York” (Simon & Garfunkel)
Simon & Garfunkel, têm dado às histórias de “Em Órbita” muitos dos seus mais significativos momentos. “The Only Living Boy In New York” renova em cada uma das suas imagens o universo singular e actuante de Paul Simon, um criador de excepção. Estamos em presença de duas figuras que constituem, de facto, o mais definitivo argumento de qualidade da música popular dos nossos dias. “The Only Living Boy In New York” é um acto de bom gosto.

10 – “Make Me Smile” (Chicago)
Sem enfermar do senão apontado aos Blood, Sweat and Tears, o Chicago aparece-nos como um grupo versátil, na plena posse de um género que lhe pertence. “Make Me Smile” é um dos quantos exemplos que poderiam figurar nesta lista. Mostruário das suas potencialidades, é ainda o revelar de uma fé sem limites na música que praticam.

9 – “With You There To Help Me” (Jethro Tull)
Jethro Tull: quatro personalidades das mais fortes, juntas na prática duma forma única de música popular. “With You There To Help Me”, amostra impertinente do trabalho deste grupo, é bem a continuação lógica, mas não repetida, de tudo o que vinham prometendo. Executantes de grande brilho, constituem uma das mais categóricas afirmações de vanguarda de hoje. “With You There To Help Me”: um desafio de originalidade.

8 – “Crazy Man Michael” (Fairport Convention)
No sentir belo do que é frágil surpreendem-se as realizações de Sandy Denny. Ainda quando nos Fairport Convention, o aparecimento de “Crazy Man Michael” veio renovar as certezas já sentidas nesta intérprete. É uma canção feita de momentos livres, onde não se esconde o gosto por um tema de amor. “Crazy Man Michael” foi uma das melhores criações do agora decadente grupo Fairport Convention.

7 – “Curry Land” (Donovan)
Donovan continua a ascender em momentos de envolvente beleza. Dotado de uma sensabilidade fora do comum, todas as suas criações se revestem de uma ternura quase não possível. “Curry Land” é o continuar do que já fora contado em “Atlantis”. Cântico mágico, onde o sagrado e o profano se interpenetram na ânsia de um êxtase.

6 – “Friends” (Led Zeppelin)
Nas regiões mais remotas de insondáveis abismos se consome a força criadora dos Led Zeppelin. Profetas de futuras revoluções sonoras, eles celebram a mutação deste tempo. Os Led Zeppelin são atmosferas onde se respira o diabólico, o desconhecido, o estremecer sombrio das grandes trevas.

5 – “Sixty Years On” (Elton John)
“Sixty Years On” trouxe às histórias do ano findo, o nome de um intérprete seguro, empenhado no redescobrir de sonoridades tidas como ultrapassadas. Os temas de Elton John, saídos de uma concepção quase comum, mostram-se como reservas de inesgotável prazer auditivo. “Sixty Years On” é exemplo das intenções deste autor. Numa prolongada e dramática evocação de violencelos introduz-se um grupo de imagens rico de sugestões poéticas e sonoras, sabor amargo de um paraíso muito cedo perdido. “Sixty Years On” é uma das mais belas construções musicais do ano 1970.

4 – “The Way I Feel” (Fotheringay)
“The Way I Feel”, foi uma das mais saudáveis manifestações de juventude de 1970. Um registo cuidado onde tudo se articula na precisão dum mecanismo de vanguarda. Elaborado nas fronteiras que separam o tradicional do popular, “The Way I Feel” é um tema que cresce no estrépito dum galope arrebatador.

3 – “Almost Cut My Hair” (Crosby, Stills, Nash & Young)
“Almost Cut My Hair” prolonga a sobrevivência da sempre querida herança deixada pelos Byrds e Buffalo Springfield. Ecoar duma tradição ainda tida como presente, é o quebrar violento de uma tensão emocional há muito retida. Um tema de sugestões contraditórias, onde se confundem desespero, ternura e um mal explicado travo de angústia. Dave Crosby tem aqui a mais importante das suas criações.

2 – “Fire And Rain” (James Taylor)
“Fire and Rain” é um dos mais encontrados temas dos últimos anos. Proposto num esquema de extrema simplicidade, é contudo uma gravação repleta de pormenores de interesse, donde se liberta a frescura do gesto espontâneo.

1 – “Bridge Over Troubled Water” (Simon & Garfunkel)

A melhor gravação de 1970, apaixonada revisão de valores, é o desenterrar solene de um quase perdido sentido de pureza. Um desenho simples, esboço não acabado, recusa do sentimento subvertido ao desencanto. Atmosfera de rigor sagrado, memória distante transportada pelo eco dos abismos do tempo, revoar de asas mortas rejuvenescidas no Abrigo do Absoluto. Reencontro de emoções esquecidas, “Bridge Over Troubled Water”, é a melhor gravação de 1970.


Ainda segundo o programa “Em Órbita” “In The Summertime”, dos Mungo Jerry, foi considerada a pior gravação de 1970. E cito: «Uma completa manifestação de incapacidade criadora, que assume um carácter particularmente perigoso dada a forma quase científica como explora o instinto deseducado dos que não sabem tomar opções.»

Muito a propósito, descobri recentemente num velho alfarrábio, a minha própria classificação dos temas que mais gostei de ouvir nesse mesmo ano de 1970 e que transcrevo a seguir. Tem, claro, a grande virtude (ou desvantagem) de ter sido elaborada na época e de não ter sofrido portanto a clivagem do tempo:

1 – “Bridge Over Troubled Water” (Simon & Garfunkel)
2 – “Whole Lotta Love” (Led Zeppelin)
3- “Can’t Find My Way Home” (Blind Faith)
4 – “Instant Karma” (Plastic Ono Band)
5- “Let It Be” (The Beatles)
6 – “Immigrant Song” (Led Zeppelin)
7 – “Question” (The Moody Blues)
8 – “My Sweet Lord” (George Harrison)
9 – “Black Night” (Deep Purple)
10 – “Serenade” (Wallace Collection)
11 – “I’m A Man” (Chicago)
12 – “Wild World” (Jimmy Cliff)
13 – “Me And My Life” (The Tremeloes)
14 – “Magic Forest” (Fat Matress)
15 – “Hóspede” (José Almada)
16 – “All Right Now” (Free)
17 – “Marie Jolie” (Aphrodite’s Child)
18 – “Paranoid” (Black Sabbath)
19 – “Up On Creeple Creek” (The Band)
20 – “The Long and Winding Road” (The Beatles)
21 – “Wandrin’ Star” (Lee Marvin)
22 – “Solitary Man” (Neil Diamond)
23 – “Love Like A Man” (Ten Years After)
24 – “Lonely Days” (The Bee Gees)
25 – “Beaucoups of Blues” (Ringo Starr)
26 – “Teach Your Children” (Crosby, Stills,. Nash & Young)
27 – “Summertime Blues” (The Who)
28 – “See Me, Feel Mee” (The Who)
29 – “Je T’aime Normal” (Jean et Jeanette)
30 – “I Who Have Nothing” (Tom Jones)

Uma lista que mostra o gosto de um Rato com 17 aninhos, já muito eclético por sinal. Alguns dos temas foram editados ainda no fim dos anos 60, mas pelos vistos só se tornaram conhecidos em 1970. Curiosa a inclusão do “Hóspede” de José Almada a meio da tabela. Mas alguém me sabe informar que raio de tema é o “Je T’aime Normal” ??? É que eu próprio não faço a mínima ideia...

Quarta-feira, Março 12, 2008

"Não sabíamos mais, tínhamos quinze anos..."

Edição Original em LP London Globe SLLGB 1000
(1969)

Devido à grande insistência de pedidos, aqui fica de novo esta jóia rara, recuperada dos anais da memória para júbilo de todos os ratos de discoteca. Um album rarissimo e muito difícil de encontrar, editado exclusivamente em Portugal durante o ano de 1969. A editora foi a Valentim de Carvalho, pelo que se receia o desaparecimento das bobines originais de gravação.


Esta transcrição para formato digital foi feita particularmente a expensas próprias e só foi possível graças ao Daniel Bacelar que gentilmente me disponibilizou o vinil original, como sempre em estado impecável. Por isso mesmo convém aqui lembrar que o disco não se encontra à venda; é que desde o ano passado tenho recebido várias solicitações para esse efeito, inclusivé do biógrafo do próprio Serrat que há muitos anos anda à procura de uma cópia do album original.

São doze canções (mais duas do que a versão original espanhola) com letras e músicas do próprio Serrat, e versões portuguesas de Alexandre O'Neil (que assina 8 temas), António José (très) e Magalhães Pereira. É precisamente com a versão deste último, "Meu Amor Adeus" (a minha preferida de todas) que vos deixo:

Quero esquecer essa casa vermelha
e a janela em flor
a escada tosca e a imagem velha
recordações dum breve amor.

A cama negra e tão esburacada
d’alvos lençóis iguais
e a chegada duma madrugada
que juntos não veremos mais.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Adeus, adeus, partirei à calada
que frio paira no ar...
mas vou cantar, gritar uma toada
assim o frio irá passar.

Não vou esperar e não quero ouvir nada
nem o ladrido do teu cão
nem o adeus dessa gente que é nada
inútil recordação.

Não quero que teus olhos chorem
e procurem os meus
o caminho é tão longo
meu amor adeus!

Pus a guitarra ao ombro e agora
vou p’ra longe daqui
quando na noite bater uma hora
não estarei já ao pé de ti.

Os anos hão-de apagar as pisadas
que deixo em teu redor
eu vou a pé, o caminho é tão longo
direi adeus a cada flor.

Terça-feira, Março 11, 2008

TRINI LOPEZ: THE R&B ALBUM (1965)

Original Released on LP Reprise R-6171 (1965)

Segunda-feira, Março 10, 2008

O SOM DOS BEATLES

“… The world is ours to tear apart
But what if it's too late to start again?
Don't let it die…”
Lembram-se desta canção de 1971? Chamava-se precisamente “Don’t Let It Die” e era já, naquela altura, uma canção com preocupações ecológicas. Independentemente disso, sempre gostei de a ouvir, apesar dela me lembrar um bêbado a cantar encostado a uma qualquer esquina perdida. Mas aquele som tinha qualquer coisa que me atraía.
O intérprete dessa canção faleceu na passada terça-feira, dia 4, aos 85 anos, vítima de cancro. Chamava-se Norman “Hurricane” Smith. Talvez o nome não diga nada à grande maioria das pessoas mas ele foi um dos responsáveis pela descoberta de um som que hoje, mais de quatro décadas volvidas, ainda nos seduz a todos: o som dos Beatles.
Engenheiro de som, músico e produtor britânico, Norman Smith tinha já 36 anos quando começou a trabalhar nos estúdios EMI em Abbey Road, subindo na hierarquia enquanto instrumentista e arranjador. Era ele que estava de serviço quando os Beatles foram à EMI fazer o teste de gravação para o George Martin; e, tal como este, também na altura não ficou lá muito impressionado com o que ouviu. Mas isso, como se costuma dizer, é outra história.

Mais tarde, já com o quarteto contratado pela discográfica, Norman foi encarregado de escolher o equipamento e as técnicas necessárias à transposição dos sons originais captados em estúdio para as fitas de gravação. Apesar de na altura estar muito em moda a reverberação e outros ornamentos na música pop, Norman achou que o som que os Beatles debitavam na sala era bom demais para lhe acrescentar qualquer efeito e por isso procurou preservá-lo tal e qual.
Malcolm Addey, antigo colega de Smith, afirmou que ele era capaz de grandes proezas musicais porque conhecia tudo de trás para diante e sempre esteve mais interessado em captar interpretações do que em andar a fazer experiências com o material.
Norman Smith deixou a sua marca em toda a discografia inicial dos Beatles, de 1963 a 1966, incentivando sempre a tendência crescentemente experimental da banda. O último album em que trabalhou do princípio ao fim com os Beatles foi o Rubber Soul, sendo responsável pela utilização da cítara na canção “Norwegian Wood”.

No decorrer desses anos, Norman desenvolveu uma profunda relação de amizade com os quatro Beatles, e John Lennon, sempre expedito em distribuir alcunhas, resolveu apelidá-lo de “Norman Normal”, por ele andar sempre impecavelmente vestido, de fato e gravata. Indumentária que abandonaria na segunda metade dos anos 60, quando o boom hippie eclodiu, contagiando tudo e todos.

Em 1967, já como produtor principal da EMI, descobre os Pink Floyd e produz integralmente os dois primeiros albuns, ainda com Syd Barret: “The Piper At The Gates Of Dawn” e “A Saucerful Of Secrets”, vindo ainda a fazer uma perninha no "Ummagumma" de 69. Mais tarde viria a ser também o produtor dos Pretty Things.
Já nos começos dos anos 70 inicia uma breve carreira a solo, sob o nome artístico de Hurricane Smith, e na qual consegue dois grandes sucessos: o já citado “Don’t Let It Die” que chegaria ao TOP 3 das tabelas inglesas em Julho de 1971; e ainda “Oh Babe, What Would You Say”, também um TOP 3, mas nas tabelas americanas, em 1972.

A MESSAGE FROM SIR PAUL McCARTNEY:

To speak of Norman "Hurricane" Smith brings memories flooding back because he was the first sound engineer that we got to know in the early days of the Beatles. We liked him because not only was he an excellent engineer at the time but one who always had a great sense of humour and a twinkle in his eye. We made a lot of great music together and were part of the birth of what to be an explosion in British popular music.

When later he became a recording artist in his own right I was pleased to hear his funky sound and gravely voice, which at Beatles sessions he had managed to keep well under his hat. I wish him the best of luck always and will never forget the exciting moments we shared.

Domingo, Março 09, 2008

BÉCAUD: LES PLUS BELLES CHANSONS

Cá está ela, Daniel, a coleção das coleções do monsieur 100.000 volts. Dedico-a em primeiro lugar a ti, que ma sugeriste, mas deixa-me aqui fazer uma segunda dedicatória ao LPA, para o lembrar das muitas maravilhas que este grande senhor ofereceu à canção francesa, não só como intérprete mas também como compositor de eleição. São 25 temas aparecidos ao longo de uma dúzia de anos (1959 - 1970), fazendo todas elas já parte do legado que aquela década prodigiosa nos deixou a todos. Cabe aqui referir que grande parte das compilações que costumam aparecer no mercado não contêm as gravações originais mas sim novas versões, algumas delas com arranjos e sonoridades de gosto no mínimo discutível. Não é, claro, o caso destes 25 temas, que apesar do seu magnífico som (alguns foram remasterizados mas mantendo sempre e escrupulosamente a "traça" inicial) são mesmo as versões originais. Aproveitem portanto.

Sábado, Março 08, 2008

RATO'S NOSTALGIA COLLECTION 46

Já era tempo do Rato partilhar mais uma das suas coleções nostálgicas. Cá está ela, como sempre recheada de raridades, e que vos trará com certeza doces imagens das vossas vidas. Disfrutem!

PAUL MAURIAT 1967-68

Quinta-feira, Março 06, 2008

EP RR 0054 (PT, 1969)

CONJUNTO SEM NOME
"E O Benfica É Campeão"

Quarta-feira, Março 05, 2008

DUO OURO NEGRO: RAUL E MILO

E aqui fica mais uma grande coletânea do Duo Ouro Negro, com o atractivo suplementar de incluir 9 temas nunca editados em CD (faixas 5 - 6 - 7 - 10 - 11 - 14 - 15 - 19 e 22): todos eles foram ripados dos vinis originais e remasterizados digitalmente com grande qualidade. Para os que não chegaram a fazer o download da primeira compilação têm agora essa possibilidade visto os ficheiros se encontrarem à vossa disposição no post seguinte.

TRINTA PEDAÇOS DE SAUDADE

A 4 de Junho de 2006, desaparecia a segunda metade do Duo Ouro Negro, um dos três nomes (os outros dois são Eusébio e Amália Rodrigues) que nos idos de sessenta lograram dar a conhecer Portugal aos quatro cantos do mundo. Apenas porque tinham qualidade, demasiada qualidade para ficarem restringidos a este pequeno rectângulo à beira-mar plantado, onde, já nesse tempo, a inveja e a mesquinhez reinantes eram incompatíveis com uma carreira nacional de grande sucesso. Por isso Raul e Milo se fizeram à estrada, levando a sua música a ouvidos mais limpos e a mentes mais arejadas. Fizeram bem, até por usarem Portugal unicamente como trampolim. Afinal aquela música nada tinha a ver com o fado ou o folclore lusitano, e só por circunstâncias políticas da época se poderiam confundir.
Em Fevereiro de 1974, entrevistado por Regina Louro para a revista «Flama», Milo apontava, com algum sarcasmo, algumas razões para há muito tempo não actuarem em Portugal: «Quais são os artistas portugueses que têm actuado aqui? A verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para cantarmos. Os teatros têm os seus elencos, os cinemas o que querem é vender filmes, a televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num plano inferior a nós. Ao artista português mais não resta do que esperar pelo Verão para ir a feiras, festas na província, ou a um ou outro casino nas estâncias balneares. Fora desse período está condenado a uma carreira internacional».

Mais de um quarto de século passado e as mudanças não são muitas – o enorme legado do Duo Ouro Negro continua submerso, sabe-se lá em que águas turvas das editoras deste país. Duas ou três compilações, o duplo "Background" (1981) e o album gravado com o Sivuca em 1967 foram, tanto quanto sei, as edições discográficas aparecidas em CD. Mas, escusado será dizer, nenhuma destas edições se encontra à venda nas lojas, pois já há muito tempo que se encontram esgotadas. Mais uma vez a inércia do “deixa andar, que não vende” é-nos dada como a estafada desculpa para a não edição de obras que obrigatoriamente deveriam ser levadas ao conhecimento do grande público. E a obra do Duo Ouro Negro é uma das mais valiosas, como se pode perceber ao ler o excelente artigo intitulado “Uma Miragem”, da autoria de Jorge P. Pires, publicado no semanário Expresso na altura da edição do duplo CD “Kurikutela - 40 Anos, 40 Êxitos”, nos fins da década de 90, e que a seguir se transcreve (para consulta de uma biografia mais tradicional e detalhada ver a entrada na Wikipédia Portuguesa). Esta compilação de trinta temas que aqui se disponibiliza é portanto apenas uma pequena gota d’água no oceano, com a curiosidade extra de alguns temas incluídos nunca terem sido editados em CD (casos de “Dominique”, “Beija-me”, “Hava Naguila” e “Click Song”) e que foram retirados de discos de vinil, sendo posteriormente remasterizados com óptimos resultados.

UMA MIRAGEM

Houve um tempo, um tempo breve, em que pareceu que a música popular portuguesa podia ser assim: uma coisa intercontinental, afro-europeia e euro-africana, que pregava um estilo de vida dominado pela elegância e a alegria; atenta às mudanças do mundo e a cada uma das novas tendências internacionais; ecuménica, capaz de acolher no seu seio a memória do antigo reino dos Kwaniamas enquanto gerava luminosas versões de canções dos Beatles cantadas em português e acotovelava as grandes estrelas da época, como Eartha Kitt, Peter Ustinov, Maria Callas, Charles Aznavour ou Gina Lolobrigida. Houve um tempo em que o Duo Ouro Negro, que nasceu no sul de Angola na segunda metade da década de 50, de lá saíu como uma estrela cadente, para fazer escala em Lisboa antes de partir em direcção a outras e mais vibrantes constelações. Houve um tempo em que pareceu que Angola ia ser assim.

Sendo originalmente um trio, foi já como duo que Raul Indipwo e Milo MacMahon - então conhecidos ainda com os seus nomes lusitanos, Raul Aires Peres e Emílio Pereira – se tornaram conhecidos graças às suas espantosas harmonias vocais e a um domínio exímio da guitarra. A princípio projectavam apresentar um elenco do folclore angolano e das suas várias etnias e línguas. Mas a canção que foram estrear ao Cine-Teatro Restauração, em Luanda, e que se tornou o seu primeiro grande êxito, já havia excedido esses limites. No seu registo impressionista e misterioso, «Kurikutela», cujo nome significa «comboio» e celebra o veículo de ferro onde «Toda a gente leva pressa/ de chegar à sua terra/ Estão os parentes à espera» ainda hoje se dá a ouvir como um caso à parte.

Após o êxito conseguido na capital angolana chegam a Lisboa em 1959 pela mão do empresário cinematográfico Ribeiro Belga e, apesar da concorrência em voga no mundo da canção, conquistam em absoluto o público com actuações no Cinema Roma e no Casino Estoril, gravam três discos (inicialmente acompanhados pelo conjunto de Sivuca, depois pela orquestra de Joaquim Luís Gomes), passam pelos écrãs da RTP (onde nessa época se actuava sempre em directo) e regressam a Angola pouco antes do eclodir da guerra, em 1961. Até 1985, ano do falecimento de Milo (a 20 de Fevereiro), decorrerá então o período efervescente do Duo Ouro Negro, marcado por diversas fases e pela polarização do reportório (como todos, submetido à vigilância da censura prévia) entre os registos pop mais inanes e lustrosos de romantismo radiofónico, e outras canções que, não sendo de intervenção política, serão no mínimo de intervenção ideológica. O próprio ano de 1961, em que publicam «Garota» («...se eu beijar sua boca/ Deixará de ser garota/ Passará a ser mulher») e «Mãe Preta» (uma canção espantosa que fala da escravatura glosando a melodia do «Barco Negro» cantado por Amália) é um bom exemplo deste estado de coisas algo esquizóide: celebrados como verdadeiros ídolos em Angola – e ali impedidos pelo censores de interpretarem em palco parte do seu reportório – a presença mediática que conquistaram na metrópole fez com que aqui fossem olhados como um novo trunfo do regime, a garantia de que, apesar da guerra, a existência de um Portugal pluricontinental, como «muitas raças, um só povo» era um dado indesmentível.

O que não pode ser desmentido, porém, é que o verdadeiro trunfo do Duo sempre foi a perspicácia e a actualidade da sua visão africanista, que também poderemos interpretar como uma fidelidade às origens. E isto apesar dos triunfos internacionais que lhes surgem pela frente logo na primeira metade dos anos 60, quando percorrem o norte da Europa e de lá regressam com versões em português dos Beatles («Agora Vou Ser Feliz», em 1964, com nova letra sobre a melodia de «I Wanna Hold Your Hand») e de Charles Aznavour («La Mamma») - antes ainda das actuações no Olympia parisiense (1965), das galas para os Príncipes do Mónaco (1966), do convite para o primeiro grande espectáculo televisivo da UNICEF e das primeiras actuações no Rio de Janeiro (1967). Estas últimas motivaram aliás nova explosão criativa, de início patente em temas como «Quando Cheguei ao Brasil»: «Minha terra era Cabinda/ No Maiombe eu nasci/ Meu cantar era marimba/ Antes de vir para aqui// Quando cheguei ao Brasil/ Sem a minha liberdade/ Quando cheguei ao Brasil/ Tudo em mim era saudade». Era a celebração da diáspora africana, mas também o início do período afro-latino, que ao longo dos anos daria origem a temas como o espantoso «Moamba, Banana e Cola» (1969, com a orquestra de Jorge Leone), «Iemanjá» (1971), ou o encíclico «África Latina» (1979). Comparativamente, a longa digressão pelo Extremo Oriente – a que o Duo se remete na primeira metade dos anos 70, após a sua exibição na Expo de Tóquio – não parece ter deixado grandes marcas no reportório que praticavam.
Mais do que a miragem do que o nosso passado comum poderia ter sido, é a história de uma miragem de futuro, também ela invulgar, e que pode sintetizar-se, afinal, em breves linhas: «Sou da África Latina/ Sou do século 21/ Nossa gente está por cima/ Todos juntos somos um». É a grande vantagem das canções.

Terça-feira, Março 04, 2008

PAUL MAURIAT 1966-67

Segunda-feira, Março 03, 2008

HAMMOND POPS 2

Original Released on LP Telefunken SLE 14514 P (1968)
Note: I've discovered this album on the blog VINYL ROOM, which offers many instrumental sounds. Maybe it's a good idea to visit it and discover some other albums for your collection.

Sábado, Março 01, 2008

THE BEATLES TRIBUTE - VOL. 14