Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007

COLECÇÕES AFONSINAS

E assim se conclui a apresentação dos dez albuns originais de José Afonso gravados entre 1968 e 1979.
Mas as lembranças do Zeca não ficam por aqui. Já a seguir vou colocar à disposição de todos vós uma magnífica colecção de versões de vários intérpretes, que repesquei de diversos trabalhos, quer individuais quer colectivos. Vai chamar-se “A Falta Que Faz (Lembranças de José Afonso)”e encontra-se em fase final de produção. Estejam portanto atentos.

Posteriormente será feita ainda uma Grande Antologia em três volumes, onde para além das melhores canções destes dez albuns de originais serão também incluídos temas gravados fora deste período, bem como excertos do album ao vivo no Coliseu.
Espero deste modo ter contribuído para a divulgação da música de José Afonso, sobretudo além-fronteiras, em países que não têm acesso à esmagadora maioria dos discos mas de onde, para grande espanto meu, me têm chegado ecos de devotas paixões à música portuguesa.

"Viva a Maria da Fonte Com as Pistolas na Mão..."


Edição Original em LP Orfeu STAT 095 (1979)
Foi graças a este disco (e ao tão subestimado "Histórias de Viajeiros", de Fausto, também de 1979) que os Trovante começaram a ganhar a força que necessitavam para sair do circuito mais ou menos fechado das actuações em comícios do PC, que até então frequentavam. O grupo de "Baile no Bosque" é, de facto, o grande suporte musical deste trabalho, evidenciando também o empenhamento de Zeca (notório, de resto, em todos os seus trabalhos) no apoio às novas gera­ções de músicos. Incluem-se, aqui, os temas que Zeca escreveu para a peça 'Zé do Telhado', do Grupo de Teatro A Barraca, e duas canções escritas para a 'Guerra do Alecrim e Manjerona', da Comuna.
Depois de ter trabalhado com José Mário Branco e com Fausto, chegou a vez de José Afonso convidar Júlio Pereira. E em boa hora o fez, porque o homem do cavaquinho, da braguesa e de outras redescobertas, rodeou-se de excelentes músicos e melhores ideias para nos deixar este belo trabalho, que marca o regresso de José Afonso a algumas formas de expressão utilizadas nos seus primeiros álbuns, enriquecidas, no entanto, por toda a experiência adquirida, humana e artisticamente.

Aqui ficam alguns excertos de um texto de Júlio Pereira retirado da Revista do 4º Festival de Música Popular Portuguesa (Amadora 1991):
«Quando conheci o Zeca, em pessoa, tinha eu 24 anos. Todos deveriam ter a oportunidade de conviver com um génio. Que me perdoem alguns puristas se, com alguma perplexidade, confesso, admito o conceito de génio no meu vocabulário. Porque o que sempre me fascinou, certamente aquilo que será sempre o mais difícil de entender para um músico desatento, foi uma questão, porventura a tónica da sua maneira de ser, quero dizer, da maneira de ser de um génio – a humildade. Não façamos confusão. Só existe humildade porque não estamos sós. Daí que este conceito seja tão propenso a superficialidades.
A música não engana ninguém. Muito menos um músico. A música é o que não deixa um músico mentir. É por isso que um músico jamais poderá enganar outro músico. Quando eu conheci o Zeca, fiquei a saber que ele era um grande músico. Fascinou-me porque me perturbou, ou perturbou-me porque me fascinou?
O que é bom é bom; ou porque é bem feito, ou porque nos traz um acréscimo de sentido. E o que é bom, toca-nos. E o Zeca toca qualquer músico.»

Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

"Cantai rapazes, dançai raparigas..."


Edição Original em LP Orfeu STAT 054 (1978)
À semelhança do album anterior, também este “Enquanto Há Força” se encontra impregnado da crítica feroz ao poder instituído (que atinge o clímax em Arcebispíada: «Se o Pinochet concordasse já em Fátima haveria mais de trinta mil vermelhos a arder de noite e de dia»), a par de um certo desencanto (patente, por exemplo, em A Acupuntura em Odemira, um tema anterior a 74 que Zeca recupera para este disco) e de uma ironia subtil, expressa nos versos quase ingénuos da segunda versão de Viva o Poder Popular.

Pela primeira vez, José Afonso reparte com ou­tro compositor a autoria de duas canções: Eu, o Povo, sobre texto do poeta moçambicano Barnabé João (Mutiatimi Barnabé João, aliás João Pedra Grabato Dias, aliás António Quadros (Pintor). Pseudónimos de António Augusto de Meio Lucena e Quadros (1933-1994). pintor. escultor e poeta. que tem vários textos musicados por Zeca e, mais recentemente, por Amélia Muge), e A Acupuntura em Odemira, ambas musicadas de parceria com Fausto, que com Zeca assume também a direcção musical do disco.

O elenco dos músicos e das vozes que participaram nesta gravação, é dos mais ricos e diversificados que o Zeca utilizou em todas as suas gravações. Em "Enquanto Há Força" surgem, por exemplo, o violino de Carlos Zíngaro, a guitarra portuguesa, o sistre e o alaúde de Pedro Caldeira Cabral, as flautas indianas de Rão Kyao, os baixos eléctricos de Luís Duarte e Paulo Godinho, e as vozes de Adriano, Fausto, Sérgio Godinho e outros. Chama-se a isto, um elenco de luxo: era a festa dos amigos do Zeca, com o Zeca.

Domingo, Fevereiro 25, 2007

"Já Muito Maroto Se Diz Revolucionário..."


Edição Original em LP Orfeu STAT 036 (1976)
Com as Minhas Tamanquinhas representa o regresso de José Afonso às gravações em estúdios portugueses depois de cinco discos gravados em Londres, Paris e Madrid.
Musicalmente com coisas muito interessantes, onde as influências africanistas se fazem notar em diversos temas, é no entanto o album de Zeca em que as preocupações líricas foram positivamente atiradas às urtigas. Intencionalmente! Gravado logo a seguir ao fim do PREC (para os mais desatentos esta sigla significava “Processo Revolucionário Em Curso”), mostra-nos um cantor repórter e crítico da realidade portuguesa da altura, incisivo, agressivo, interveniente, revoltado, mas também desiludido. José Afonso passa assim mais uma vez ao ataque, chama “os bois pelos nomes” e dispara contra Kissinger, denuncia Aventino Teixeira (Como Se Faz Um Canalha), torna-se panfletário ao falar do 11 de Março e do Ralis (No Dia da Unidade), revolta-se com a exploração da Mulher (Teresa Torga). Num país "aliviado" pelo fim do gonçalvismo e ansioso pela instauração de uma democracia parlamentar burguesa não admira portanto que este disco tivesse sido tão odiado pelos poderes instituídos. E é claro que Zeca, em conformidade com a sua teoria do desassossego permanente, sempre afirmou ser este o seu melhor trabalho, num misto de provocação e de grande coerência.

Disco comprometido e datado é, no entanto, um trabalho capaz de sobreviver às situações que lhe deram origem. A gravação, já nos anos 90, de Os Índios da Meia Praia por Dulce Pontes é a prova disso mesmo.
Pela primeira vez o nome de José Afonso assina todas as faixas do LP, bem como a orientação musical, coisa que, aliás, ele nunca deixou de fazer em todas as gravações. Fausto voltou a estar no centro das operações (na direcção e arranjos), voltando a registar-se também as colaborações musicais de Michel Delaporte, Vitorino e Júlio Pereira. Ah, e ainda uma curiosidade histórica: a participação insólita nas gravações de Quim Barreiros!

Sábado, Fevereiro 24, 2007

"O Que Faz Falta é Animar a Malta..."


Edição Original em LP Orfeu STAT 026 (Janeiro 1975)
Pela primeira vez não foi preciso mandar à censura prévia os poemas que José Afonso iria cantar no seu primeiro disco gravado a seguir ao 25 de Abril. O sonho de tantos anos torna-se finalmente uma realidade, que Zeca acompanha de perto deslumbrado com aquela vontade colectiva de virar o mundo do avesso.
Entretanto, nos meios musicais, criara-se uma expectativa: “E agora, o que é que o Zeca vai fazer”?
A resposta está em parte neste disco, integralmente preenchido por temas compostos antes de Abril. Recusando a catalogação e a instrumentalização (tão comuns naquele período de emoções fortes), José Afonso mantém intactas as suas convicções, as suas fidelidades e as suas amizades. Até porque – e ele sabia disso – todos o respeitavam.
"Coro dos Tribunais" é gravado no final de 1974, em Londres, nos estúdios da Pye Records, onde já tinha sido gravado o album “Traz Outro Amigo Também”, quatro anos antes. Para suceder a José Mário Branco na direcção musical da gravação, José Afonso escolhe Fausto, que assim inicia com ele uma colaboração que se estenderia a outros discos futuros. Para além de Fausto, integraram também esta nova excursão londrina o Adriano Correia de Oliveira, o Vitorino, o Carlos Alberto Moniz, o francês Michel Delaporte, o brasileiro Yório Gonçalves e ainda José Niza, que tem a seu cargo a produção do novo disco.

Londres, ao contrário de Paris ou de Madrid, era de certa maneira uma cidade mais hostil, mais estranha, menos propícia à criação de um ambiente latino, em que a comida, a bebida e o próprio idioma não ajudavam à festa. Uma tarde o Adriano e o Vitorino entraram no estúdio com um brilhozinho nos olhos e a novidade de terem descoberto ali perto um sítio onde havia vinho tinto português e mais umas coisas para petiscar. Foi a debandada geral, perante a perplexidade de Bob Harper, o engenheiro de som, que nunca tinha visto interromper-se uma gravação londrina por causa de apetites deste género.
Numa entrevista dada ao “Mundo da Canção” em 1981, José Afonso refere este tipo de cumplicidades: «O mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta irmandade progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que têm determinado tipo de preocupações...»

"Não Me Obriguem Vir Para a Rua Gritar..."


Edição Original no LP ORFEU STAT 017 (1973/12)
Do mesmo modo que sempre preferi o “Abbey Road” ao “Sgt. Pepper’s” dos Beatles, também aqui, na obra do Zeca, vou contra a grande maioria. “Cantigas do Maio” poderá ser a referência básica para (quase) toda a gente mas para mim sempre perdeu terreno face a este “Venham Mais Cinco”, que foi o album que mais vezes coloquei a girar no prato do gira-discos. Encontrava-me nos meus vinte anos quando esta maravilha me foi parar às mãos pela primeira vez. Era o tempo em que todas as semanas saíam albuns magníficos, quer nos Estados Unidos quer sobretudo em Inglaterra, e essa grande e magnífica orgia de sons anglo-americanos não nos deixava tempo para mais nada. Ou quase nada. Este album, portuguesíssimo, foi uma das raras excepções. A sua original e espantosa modernidade cativou-nos por completo e todos aqueles novos sons ombrearam sem qualquer dificuldade com o que melhor se fazia na altura fora do país. Os sons, e, claro, as palavras também, impregnadas de um surrealismo que nos desconcertava e fascinava: A Nefretite que não tinha papeira e o Tuthankamon sem apetite, ou a tinta que caía no móvel vazio, convocando farpas, chamando o telefone e matando baratas. Ou a formiga no carreiro que vinha em sentido contrário e que caíu no Tejo ao pé dum septuagenário. E que dizer da Paz, atacada de psicose maníaco-depressiva, que saíu aos saltos para a rua, comeu mostarda e bebeu sangria?

Gravado em Paris, no estúdio “Aquarium”, de 10 a 20 de Outubro de 1973, produzido por José Niza e com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, "Venham Mais Cinco" reúne as últimas canções de José Afonso antes da sua Grândola Vila Morena nos vir a enrouquecer as gargantas alguns meses depois. Inclui diversos temas escritos por Zeca durante o seu último período de “férias” em Caxias, em Maio desse ano: 22 dias sem culpa formada e interdição de recorrência a um advogado por “inconveniências para a investigação”. É o disco em que o cantor conta com a participação de maior número de músicos (18 no total) e onde a sua poesia atinge a expressão mais ampla, livre de significados imediatistas e de interpretações lineares.
Venham Mais Cinco («Não me obriguem a vir para a rua gritar!...») é uma autêntica premonição do que está para vir, e é também o último dos grandes hinos de Zeca Afonso antes da Revolução de Abril.
Volto ao início destas notas: continuo a considerar este album, 34 anos (!) depois, o expoente máximo da obra do Zeca. Porque para além de toda a sua grande qualidade lírico-musical constitui uma charneira, um ponto de viragem. Chegava ao fim o tempo da resistência e a liberdade estava já ali, à esquina. O período clássico dos albuns de José Afonso conclui-se aqui, e da maneira mais sublime. Haveria espaço ainda no futuro para coisas muito boas mas espaçadas e não com a frequência criativa destes anos. O que até é compreensível – passaram a existir outras prioridades na vida do Zeca e o tempo para as músicas e as gravações deixou de ter a importância que tivera até então.

"A Morte Saíu à Rua Num Dia Assim..."


Continuação lógica de "Cantigas do Maio", este disco surge numa fase de grande empenhamento político de Zeca - que pouco tempo depois o levará novamente à prisão de Caxias. Pratica­mente impedido de cantar em Portugal, Zeca apresenta-se ao vivo em França e em Espanha (onde em Santiago de Compostela canta pela primeira vez em público a Grândola) e tenta dar conta, em disco, do que por cá se passa.

Prenúncios da mudança que se avizinhava são temas como Ó ti Alves ou A caminho de Urga. Mas, enquanto o dia novo não chega, Zeca continua a cantar a cólera e o desespero colectivos, através de momentos musicais inesquecíveis como A morte saiu à rua (dedicado a José Dias Coelho, assassinado pela Pide em 1961) e Por trás daquela janela (escrito para Alfredo Matos, antifascista do Barreiro que se encontrava preso), ao mesmo tempo que ironiza com a cadavérica memória salazarista (O avô cavernoso), faz novos apelos à luta (Fui à beira do mar, Eu vou ser como a toupeira) e se diverte com o aparente non sense de Fernando Pessoa (No comboio descendente), afinal a imagem perfeita de um certo laissez faire tão tipicamente lusitano.

Sexta-feira, Fevereiro 23, 2007

"Em Cada Esquina Um Amigo..."


Em entrevista ao jornal “Público” mais de 20 anos depois da gravação deste album, José Mário Branco referia-se assim a Cantigas do Maio: «Disco histórico. Mas há razões muito pessoais para esta escolha, além de razões que têm a ver com a História do meu país. Foi a primeira vez que pude trabalhar com o Zeca a sério, que descobri a riqueza incrível que está debaixo dos temas dele. Não me é possível separar este disco do que vivi ao fazê-lo. Algo de empolgante e importante para a minha vida toda.»
José Afonso e José Mário Branco tinham-se conhecido em Paris, em 1969. José Mário estava exilado em França e, nessa altura, tinha preparado a maqueta do que veio a ser o seu primeiro LP, “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades”. Foi o Zeca quem trouxe essa cassete para Lisboa, mostrando-a à Sassetti, com quem o José Mário veio a assinar um contrato de gravação. E foi na sequência desse feliz encontro que, dois anos volvidos, José Afonso convidou José Mário Branco para dirigir a gravação deste Cantigas do Maio.

Gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Herouville (França), entre 11 de Outubro e 4 de Novembro de 1971 (antes da partida Zeca chegaria a ser preso algumas horas pela P.I.D.E. em pleno aeroporto de Lisboa), este disco assinala a primeira viragem de fundo na revolução musical iniciada por Zeca uma dúzia de anos antes. O tratamento instrumental de cada tema, a beleza poética e a subversão temática atingem, aqui um nível nunca anteriormente possível. E, uma vez mais, Zeca recusa a facilidade, incluindo canções onde o surreal é já assumido na sua totalidade, para desespero da direita e de uma certa esquerda, que insistia na necessidade de uma 'definição clara' de Zeca, à luz do 'socialismo científico'.
Cantigas do Maio voltaria a ser distinguido pela Casa de Imprensa como o melhor do ano e seria considerado, em 1978, como o melhor de sempre da música popular portuguesa, numa votação organizada pelo extinto semanário Sete que contou com a participação de 25 críticos e jornalistas. Um tema, no entanto, bastaria para fazer deste album um marco da história portuguesa: "Grândola vila morena", escolhida em 1974 como senha para o arranque do Movimento dos Capitães, que em 25 de Abril derrubou a ditadura fascista. Essa escolha, como mais tarde recordaria Otelo Saraiva de Carvalho, resultou do facto da maioria das canções do Zeca se encontrar proibida na altura e também por ter sido cantada cerca de um mês antes em pleno Coliseu de Lisboa, sem que a P.I.D.E. interviesse. Como curiosidade registe-se que a gravação dos passos que conduzem a cadência alentejana da canção foi feita à noite, por oito microfones estrategicamente colocados numa zona de cascalho que circundava o Chateau d’Herouville.

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

"Somos Filhos da Madrugada..."


Zeca Afonso tem 40 anos quando grava este album nos estúdios da Pye em Londres, no alvorecer da década de 70. A sua voz nunca esteve tão cristalina e o seu canto tem o condão de nos tocar bem fundo, num misto de emoções que o tempo não consegue apagar.
No texto de apresentação, Bernardo Santareno realçava a 'pureza' como 'a nota maior' da arte de Zeca. Pureza é, de facto, a palavra exacta para definir este disco, um imenso poema de fraternidade a que não falta a raiva de quem se sabe cercado. Uma raiva que tem a sua expressão mais evidente nas in­terpretações de Os Eunucos (cuidadosamente subintitulada No reino da Etiópia, numa tentativa de dar a volta às malhas apertadas da censura) e do soberbo e angustiante poema de Jorge de Sena, Epígrafe para A Arte de Furtar.
“Traz Outro Amigo Também” não pôde contar com a participação de Rui Pato, entretanto mobilizado para a tropa e com o passaporte apreendido pela P.I.D.E.. Em seu lugar estão Carlos Correia (Bóris) e Filipe Colaço. As referências a África surgem, pela primeira vez, no trabalho de Zeca (em Avenida de Angola e Carta a Miguel Djéje), a par de temas como a emigração e o exílio (Canção do Desterro), de canções populares (Maria Faia e Moda do Entrudo) e de uma nova viagem pelos domínios camonianos (Verdes São os Campos). Incómodo e belíssimo, “Traz Outro Amigo Também” assume-se como um disco de grande maturidade, através do qual, se dúvidas ainda restassem, se tornava claro que já tudo era diferente na música portuguesa. A prova, de resto, fora dada no ano anterior a este disco, durante um programa de televisão igualmente histórico, o 'Zip Zip'. Onde Zeca, curiosamente, nunca participou...
É durante a estadia em Londres que José Afonso conhece Caetano Veloso e Gilberto Gil, ambos exilados nessa altura na capital londrina. Rezam as crónicas que Gil foi testemunha assídua no estúdio e que aí aprendeu e reconheceu o grande mérito das canções do Zeca. E também que este teria improvisado a música para “London London” durante um jantar num restaurante português. Caetano agradeceu pois andava atrapalhado para compor uma música que ilustrasse a sua estadia em Londres.
A Casa da Imprensa distingue uma vez mais o novo trabalho como disco do ano, além de atribuir a José Afonso o prémio Honra «pela alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música popular portuguesa».

A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a “pureza” a nota maior desta arte: Pureza de voz, pureza no poema, pureza na música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: Trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. E o ouvinte fica tonificado, «limpo», cheio de graça, com mais vigor para a luta. No chiqueiro velho e saudosista, insignificativo e feio da música ligeira do nosso país, José Afonso surgiu como um renovador: De riso claro e leal, com punho duro de diamante, terno e gentil sem amaneiramentos. Limpou crostas, desatou amarras, descobriu ramos verdes e ocultos, abriu janelas na parede bolorenta do fatalismo lusíada. E como esta arte pura e viril habitava já, nebulosamente, nos anseios da juventude que tanto pechisbeque musical mórbido e paupérrimo trazia nauseada, José Afonso conseguiu rapidamente uma enorme audiência. Ele é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade. Por isto, todos o amam. E o amor do povo, dos jovens, de todos aqueles que ainda não estão definitivamente contaminados, esclerosados, é, tenho a certeza, a recompensa e a glória de José Afonso. Nem tudo está podre no reino da Dinamarca. (Bernardo Santareno)

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

"Só Corpos Negros Ficaram Dentro da Casa Vazia..."


«Gravei um disco com bombo, cavaquinho, gaita-de-beiços, marimba, reco-reco e lampião chinês. A coisa é nova para matar definitivamente a choradeira das baladas»
(José Afonso)
Em plena crise académica e ascenção marcelista, José Afonso faz uma peregrinação por terras beirãs com o intuito de recolher temas folclóricos em Malpica do Tejo, perto de Monsanto (onde aproveita para fazer o único negócio que se lhe conhece da sua iniciativa: compra por dez contos, mediante ajuste verbal e entrega do dinheiro, uma casa tosca e exígua em plena aldeia). Dessa recolha musical resultam dois temas deste novo album, o qual, à semelhança do anterior, intercala temas do cancioneiro tradicional com as inevitáveis palavras de denúncia e resistência. Um texto de José Carlos Ary dos Santos (“A Cidade” – único poema de Ary a ser musicado por Zeca) e outro de Luís Andrade (“Era de Noite e Levaram” – uma alusão às prisões arbitrárias da pidesca instituição) são, com “Já o Tempo se Habitua”, do próprio Zeca, os exemplos mais elucidativos. José Afonso acompanha assim estes rumos novos, sempre atento aos contos velhos que os senhores da época desejam perpetuar através da tão propagada “evolução na continuidade”.

Musicalmente, este disco (o único em que a designação não corresponde ao título de nenhuma canção) marca também uma mudança significativa no trabalho do compositor. O acompanhamento não se limita já à viola de Rui Pato mas estende-se a outros instrumentos de raiz tradicional, tais como o bombo ou o cavaquinho (ver ficha técnica no verso). A Casa da Imprensa distingue o album com o prémio da crítica para o melhor disco do ano.
Ainda durante o ano de 69 José Afonso participa no festival “La Chanson de Combat Portuguaise” em Paris, onde conhece alguns artistas exilados: Sérgio Godinho, Luís Cília ou José Mário Branco, que nos anos seguintes iriam ter grande preponderância na cena musical, quer em trabalhos próprios quer em trabalhos com o próprio Zeca.

Terça-feira, Fevereiro 20, 2007

ZECA AFONSO: 20 ANOS DE SAUDADE


Por mais parodoxal que possa parecer, a carreira musical de José Afonso ficou devida em grande parte à polícia política do regime salazarista, a famigerada P.I.D.E. de má memória. Com efeito, ao regressar de Moçambique em Agosto de 1967 (onde estivera a viver 3 anos nas cidades da Beira e Lourenço Marques), José Afonso apenas pensava em continuar a ser professor e voltar ao convívio dos alunos. Aliás, o acto de cantar sempre foi encarado por ele como um frete, o que gostava mesmo de fazer era de ensinar. Mas o regime de Salazar não lhe permitiu isso. Durante o internamento clínico a que foi obrigado na sequência de uma grave crise de saúde, recebe a notícia de que tinha sido expulso do liceu de Setúbal (onde estava então colocado), bem como de todo o ensino oficial.
Com a polícia política sempre à perna, José Afonso é deste modo confrontado com as necessidades da sobrevivência, vendo-se obrigado a dar explicações e a repensar a continuação da carreira musical (interrompida quando da ida para Moçambique), apesar do cancelamento constante de espectáculos e da proibição da difusão dos seus discos pela rádio.
Rui Pato e António Portugal, companheiros de longa data, começam então a movimentar-se. Sucessivamente percorrem diversas editoras, algumas delas para as quais José Afonso já tinha gravado antes. Em vão: todas as portas se fecham, com medo de represálias da P.I.D.E.. Até que por fim vão ao Porto falar com o Arnaldo Trindade, dos Discos Orfeu, que, assumindo correr os riscos, propõe a José Afonso um contrato para a gravação de um album anual contra o pagamento de uma mensalidade fixa. Era o início de uma colaboração histórica, que durou 14 anos (1968-1981), durante os quais José Afonso gravou a parte mais rica da sua obra. Agora que se aproxima o 20º aniversário da sua morte (ocorrida em 23 de Fevereiro de 1987), todos esses albuns originais (infelizmente há muito desaparecidos dos escaparates das discotecas) irão aqui ser recordados, numa pequena homenagem a um dos maiores símbolos da cultura portuguesa.

O ponto de partida foi precisamente este, o “Cantares do Andarilho”, gravado de um só fôlego num único dia. Na altura do seu lançamento, no Natal de 68, Urbano Tavares Rodrigues escreveu que «José Afonso, trovador, é o mais puro veio de água que torna o presente em futuro, que à tradição arranca a chama do amanhã» e «a primeira voz da massa que avança em lume de vaga, a mais alta crista e a mais terna faúlha de luar na praia cólera da poesia, da balada nova.»
Nestes cantares, Zeca alia a sua criatividade à mais genuína inspiração popular, quer através da utilização de melodias tradicionais quer tomando-as apenas como um ponto de partida para a criação de novos temas, mantendo, no entanto, a sua estrutura formal. São os casos, por exemplo, de “Natal dos Simples”, da “Balada do Sino” ou dessa comovente “Canção de Embalar”, sem dúvida uma das mais belas canções de Zeca e, porque não dizê-lo?, do nosso cancioneiro popular. Uma referência final a “Vejam Bem”, um tema que se iria tornar uma espécie de hino da geração de 70.

THE BEAT OF THE POPS 10


Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

THE BEAT OF THE POPS 9


Domingo, Fevereiro 18, 2007

DYLAN REVISITED


Original Released on LP EMI-Parlophone PCS 7078
(1969, May 2)
«The great writer and the group who are probably the most professional and proficient on the British scene, mix together like vodka and lime. Some of Dylan's songs have been lying around for years, just waiting to be sung properly and the mortice-and-tenon tight three part harmonies of The Hollies add a totally new dimension to them.»
Just one of the rave press reviews that greeted the album when it was released on May 2nd 1969. The recording sessions took place at Abbey Road Studios and were finished on November 11, 1968. Although Graham Nash was still officially "A Hollie", he was not involved in those sessions. And soon he made his decision to split and join Steven Stills and David Crosby to form CSN.
This is the most controversial album in the Hollies' entire output. Graham Nash claimed he quit over the decision to record it, and critics hated it. And on its face, this is all understandable — the Hollies' distinctive high harmony singing and British beat sound were not a natural fit with Bob Dylan's songs, with their mix of earthy sensibilities and raw musicality. With one possible exception, the songs here are not presented in their ideal forms, but that doesn't explain the hostility with which the album was greeted, until one remembers the reverence in which Dylan was held at the time and the Hollies' status as a pop/rock group; in many critics' eyes, the Hollies cutting an album of Dylan songs was only a step removed from Herman's Hermits recording one. Yet the album has virtues, including Allan Clarke's powerful lead vocals and the soaring harmonies of Terry Sylvester and Tony Hicks, along with Hicks' lively and inventive guitar contributions to the album; additionally, the group's decision to draw from some of the less well-traveled corners of Dylan's songbook makes this a more interesting record than it might otherwise be. The songs range from then new compositions such as "This Wheel's on Fire" to early, obscure pieces like "When the Ship Comes In." The latter is highlighted by Clarke's forceful singing and a lively contribution on banjo by Hicks. "I Shall Be Released" is nicely stripped down, played on acoustic guitars with soaring harmonies, with an understated embellishment of what sound like marimbas, topped by a steel guitar break played by Alan Parker. The overblown, orchestrated version of "Blowin' in the Wind" (in an arrangement by Manfred Mann's Mike Vickers) may be the worst version of that song ever cut and overstays its welcome by one chorus on a string- and horn-laden finale (that seems to be trying to mimic the fade out on "All You Need Is Love") that just lays there like musical indigestion, but the singing is simply extraordinary. "Quit Your Lowdown Ways" is well-sung and even better played, with some superb rockabilly-style acoustic guitar courtesy of Hicks. "Just Like a Woman" is one of the those tracks where one wishes it were possible to go back to the multi-tracks and wipe the orchestral accompaniment away, leaving only the band's moody, subdued performance, highlighted by Bernie Calvert's gospel-style organ. "The Times They Are a' Changin'" is done with bracing enthusiasm and an off-putting sense of drama. "All I Really Want to Do" has superb singing and a strange marimba accompaniment that somehow works. And then there is "My Back Pages," the best track on the album and the only one that sounds the way the Hollies of old would've done it, loose and flowing, with beautiful acoustic guitar at its center, a reed orchestra accompanying the band, Bobby Elliott beating the hell out of his snare, and Bernie Calvert's bass holding the beat. "The Mighty Quinn" has possibilities for about 30 seconds, until the excessively heavy orchestration comes in and wrecks whatever the group has accomplished in the way of rocking up the track. This album marked only the second round of sessions on which new member Terry Sylvester participated with the group. Released in America as "Words and Music By Bob Dylan". (Bruce Eder in AllMusic)

Sábado, Fevereiro 17, 2007

Lazy trip to heaven on the wings of your love


Original Released on LP Asylum 5061 (May 1973)
Singer / songwriter / pianist Tom Waits is more than a chip off the Randy Newman block. Though he sounds like a boozier, earthier version of same and delights in rummaging through the attics of nostalgia, the persona that emerges from this remarkable debut album is Waits' own, at once sardonic, vulnerable and emotionally charged. His voice is self-mocking, bordering on self-pity, and most of his songs could be described as all-purpose lounge music ... a style that evokes an aura of crushed cigarettes in seedy bars and Sinatra singing "One for My Baby." Though it would sound like an unpromising idiom in which to work, what Waits does with it is very daring and almost entirely successful. In both his songs and in his lazy, strolling piano playing, he parodies the lounge music sub-genre so perfectly that we wonder if he's putting us on or if he's for real, and it is his especial triumph that in the end he has it both ways: He is able to deliver whole both the truth and the sham of the music. (Stephen Holden in Rolling Stone)

Tom Waits' debut album is a minor-key masterpiece filled with songs of late-night loneliness. Within the apparently narrow range of the cocktail bar pianistics and muttered vocals, Waits and producer Jerry Yester manage a surprisingly broad collection of styles, from the jazzy "Virginia Avenue" to the up-tempo funk of "Ice Cream Man" and from the acoustic guitar folkiness of "I Hope That I Don't Fall in Love With You" to the saloon song "Midnight Lullaby," which would have been a perfect addition to the repertoires of Frank Sinatra or Tony Bennett. Waits' entire musical approach is stylized, of course, and at times derivative — "Lonely" borrows a little too much from Randy Newman's "I Think It's Going to Rain Today" — and his lovelorn lyrics can be sentimental without being penetrating. But he also has a gift for gently rolling pop melodies, and he can come up with striking, original scenarios, as on the best songs, "Ol' 55" and "Martha," which Yester discreetly augments with strings. Closing Time announces the arrival of a talented songwriter whose self-conscious melancholy can be surprisingly moving. (William Ruhlmann in AllMusic)

Sexta-feira, Fevereiro 16, 2007

Straight from your heart


ORIGINAL RELEASED ON LP LIBERTY ST-7231 (1962)
I really don't understand why this particular album of Miss London has got so many bad reviews along the years. For me it is a very good album, very pleasant to listen to, from the beginning to its end. Specially when you're in the mood for romanticism. Well, here's the opportunity for you to forget about the critics and judge it for yourself.

Terça-feira, Fevereiro 13, 2007

She really gives me ideas...


A great and very seductive piece of lolita-pop; the whole album is very good (produced by her brother Nino Tempo, with whom she also placed a few hits on the American charts in the early 1960's as Nino Tempo & April Stevens), but the title song here is just one amazing concoction. Stevens coos, she woos, she seduces and then comes the punch-line: "Teach me tiger - or I'll teach you". Must have been very naughty for its time...

Sábado, Fevereiro 10, 2007

RATO'S NOSTALGIA COLLECTION 32


Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

RATO'S NOSTALGIA COLLECTION 31


Sábado, Fevereiro 03, 2007

"And Man formed Aqualung of the dust of the ground, and a host of others likened unto his kind."


Aqualung explodes like Jesus Christ Superstar sitting on a keg of dynamite, here starring Ian Anderson as our self-appointed conscience. Not everyone wanted to be preached to by a rock star, however, and the album found Tull losing some of their original fans even as they attracted new ones. The light and dark tones of Benefit are put into sharper relief this time by alternating disarming acoustic songs with a theosophical din of diabolical intent. The addition of Jeffrey Hammond-Hammond on bass (yes, the very same “Jeffrey” chronicled on their earlier albums) doesn’t change the sound of Tull much, nor does the full-time addition of John Evan, who gets buried in the band’s sonic onslaught most of the time. The blurring of Ian Anderson the performer and Aqualung the character may be alarming to some, but wasn’t it just a natural outcropping of the rock opera movement? Music fans proved they were interested in the persona as much as the player, and Anderson gave them something to think about: a composite sketch of a demigod drawn from Jesus, Loki, and Merlin among others. Of course, no album could stand up to that sort of scrutiny, so take my enthusiasm with a grain of salt. It’s just that songs like “Aqualung,” “Cross-Eyed Mary, “Hymn #43” and “Locomotive Breath” are such epic clashes of morality and reality that Aqualung assumes the scale of a Greek tragedy. The acoustic breaks are sometimes no more than lovely little bits of fluff (“Cheap Day Return,” “Wond’ring Aloud”) and sometimes a mortal analysis of the world around us (“Mother Goose,” “Wind-Up”). Yet I won’t proffer an explanation of Aqualung. The album clearly takes umbrage with institutionalized religion and reintroduces the Aqualung character on “Cross-Eyed Mary,” but it’s hard to say what it all means. (Unlike musicals, which are designed to juggle different players, rock bands just don’t have a closet full of characters at their disposal.) Aqualung is a great leap from songwriter to storyteller, though some felt Tull slipped too far into the fabled woods for the inscrutable Brick and Passion. Me, I’d say this is the beginning of a beautiful friendship between music and one man’s illimitable fancy. (Dave Connolly)
Released at a time when a lot of bands were embracing pop-Christianity (à la Jesus Christ Superstar), Aqualung was a bold statement for a rock group, a pro-God antichurch tract that probably got lots of teenagers wrestling with these ideas for the first time in their lives. This was the album that made Jethro Tull a fixture on FM radio, with riff-heavy songs like "My God," "Hymn 43," "Locomotive Breath," "Cross-Eyed Mary," "Wind Up," and the title track. And from there, they became a major arena act, and a fixture at the top of the record charts for most of the 1970s. Mixing hard rock and folk melodies with Ian Anderson's dour musings on faith and religion (mostly how organized religion had restricted man's relationship with God), the record was extremely profound for a number seven chart hit, one of the most cerebral albums ever to reach millions of rock listeners. Indeed, from this point on, Anderson and company were compelled to stretch the lyrical envelope right to the breaking point. (Bruce Eder)