Edição Original em LP Orfeu STAT 026 (Janeiro 1975)Pela primeira vez não foi preciso mandar à censura prévia os poemas que José Afonso iria cantar no seu primeiro disco gravado a seguir ao 25 de Abril. O sonho de tantos anos torna-se finalmente uma realidade, que Zeca acompanha de perto deslumbrado com aquela vontade colectiva de virar o mundo do avesso.
Entretanto, nos meios musicais, criara-se uma expectativa: “E agora, o que é que o Zeca vai fazer”?
A resposta está em parte neste disco, integralmente preenchido por temas compostos antes de Abril. Recusando a catalogação e a instrumentalização (tão comuns naquele período de emoções fortes), José Afonso mantém intactas as suas convicções, as suas fidelidades e as suas amizades. Até porque – e ele sabia disso – todos o respeitavam.
"Coro dos Tribunais" é gravado no final de 1974, em Londres, nos estúdios da Pye Records, onde já tinha sido gravado o album “Traz Outro Amigo Também”, quatro anos antes. Para suceder a José Mário Branco na direcção musical da gravação, José Afonso escolhe Fausto, que assim inicia com ele uma colaboração que se estenderia a outros discos futuros. Para além de Fausto, integraram também esta nova excursão londrina o Adriano Correia de Oliveira, o Vitorino, o Carlos Alberto Moniz, o francês Michel Delaporte, o brasileiro Yório Gonçalves e ainda José Niza, que tem a seu cargo a produção do novo disco.

Londres, ao contrário de Paris ou de Madrid, era de certa maneira uma cidade mais hostil, mais estranha, menos propícia à criação de um ambiente latino, em que a comida, a bebida e o próprio idioma não ajudavam à festa. Uma tarde o Adriano e o Vitorino entraram no estúdio com um brilhozinho nos olhos e a novidade de terem descoberto ali perto um sítio onde havia vinho tinto português e mais umas coisas para petiscar. Foi a debandada geral, perante a perplexidade de Bob Harper, o engenheiro de som, que nunca tinha visto interromper-se uma gravação londrina por causa de apetites deste género.
Numa entrevista dada ao “Mundo da Canção” em 1981, José Afonso refere este tipo de cumplicidades: «O mundo social da música não me seduz grandemente, como não me seduzem os palcos e todo esse tipo de estruturas sobre que assenta a canção. Seduz-me, sim, aquilo que posso fazer em torno da música: os contactos que estabeleço, os amigos que arranjo, esta irmandade progressista que se vai estabelecendo à medida que vamos correndo as terras, descobrindo que nessas terras vivem indivíduos que têm determinado tipo de preocupações...»